Soul descomplica jornada humana em animação

Carlos Bazela
Soul descomplica jornada humana em animação

Joe Gardner (voz de Jamie Foxx, de Ray) é um apaixonado pelo jazz. Embora seu grande sonho sempre tenha sido exibir seu talento ao piano nos clubes noturnos nova-iorquinos, ele ganha a vida como professor de música em uma escola, tentando ensinar notas e harmonias a um grupo de alunos que se dividem entre a falta de interesse e de coordenação. É assim que começa Soul, nova animação da Disney/Pixar, exclusiva para o streaming Disney+.

E é em torno desse sonho de Joe, de viver de música e seu contraponto com a realidade, com um emprego que realmente pague contas, que a história se desenrola, mostrando como a vida pode ir do topo ao chão em minutos. Às vezes, literalmente.

O que fica claro quando ele recebe o convite para tocar no quarteto da famosa saxofonista Dorothea Williams (Angela Basset, de Pantera Negra) e, no minuto seguinte, sofre um acidente que acaba desencarnando sua alma do corpo. Decidido a não aceitar fácil a passagem para o outro mundo, Joe faz o impossível para voltar ao seu corpo em coma e suas tentativas acabam jogando o músico como tutor em um campo metafísico, um lugar no qual as almas descobrem as aptidões que irão formar suas personalidades ao nascer.

Joe deve mostrar a 22 as belezas da vida na Terra. (Foto: Disney/Pixar)

Lá, ele conhece a insolente 22 (Tina Fey, de 30 Rock), uma alma que simplesmente se recusa a encarnar por achar a Terra chata demais. O músico então toma para si a missão de ser o tutor da pequena alma e ajudá-la a encontrar um motivo para vir ao mundo, tendo sucesso onde outros falharam. E falamos de nomes como Sigmund Freud, Madre Teresa de Calcutá, dentre outros. Claro que, no fundo, o que Joe Gardner quer mesmo é voltar para o seu corpo a tempo de conseguir ter seu debute como novo expoente da soul music.

Vida e morte em perspectiva

Contar histórias sobre vida e morte sem cair em clichês religiosos ou no conceito de espírito vagando entre vivos, como em Ghost – Do Outro Lado da Vida (1990) é uma difícil tarefa que Soul domina com maestria. Surfando entre conceitos científicos e ideias originais, a animação simplifica o lado quântico da experiência ao dar corpos em linhas 2D para os responsáveis por manter o além vida funcionando e entrega uma abordagem totalmente nova para mostrar a crianças e adultos o que nos forma como indivíduos.

O longa é escrito e dirigido por Pete Docter, responsável por Up: Altas Aventuras, Wall-E e Divertidamente, que mostra muito do que trouxe de bagagem deste último para traduzir elementos tão complexos quanto o indivíduo e do que consiste a vida em seu começo, meio e fim.

Aliás, se em Divertidamente, Docter soube trazer o impacto do mundo ao redor dentro de nossa cabeça de forma lúdica e figurativa, em Soul, ele é mais didático. Em sua experiência extracorpórea – e não necessariamente só como alma – Joe tem a oportunidade de ver a si mesmo de fora, desconstruindo o que ele tinha até então como propósito de vida.

Dinâmica campeã

Como em outros filmes dos dois estúdios, Soul é simples o bastante para as crianças entenderem ao mesmo ponto que é inteligente para entreter e emocionar os adultos. E isso se deve à química entre Joe e 22, que se estende ao talento dos dubladores Jorge Lucas e Carol Valença, na versão brasileira.

Em seus diálogos, cheios de provocações e sacadas, a dupla troca percepções com ensinamentos ricos que levam o espectador, assim como os dois, a descobrir a beleza da simplicidade da vida, algo que fica fácil de esquecer. Principalmente na busca por um objetivo “maior”.

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