O Mundo Sombrio de Sabrina empodera bruxinha em crítica ao patriarcado

Se você a conheceu em Sabrina, a Aprendiz de Feiticeira, pode ainda não ter ligado os fatos. Fato é que a personagem, vivida por Melissa Joan Hart na série exibida de 1996 a 2003, foi criada em 1962 por George Gladir e Dan DeCarlo para a Archie Comics – mesma editora responsável pelos personagens de Riverdale e Katy Keene. Em uma versão mais sinistra e menos inocente, a bruxinha voltou aos holofotes em publicação de 2014, assinada pela dupla Roberto Aguirre-Sacasa e Robert Hack. E agora ela surge novamente em live-action na adaptação da Netflix.

Lançada em 2018, O Mundo Sombrio de Sabrina chegou ao serviço de streaming como uma criação do próprio Roberto Aguirre-Sacasa, com sua 1ª temporada composta por 11 episódios de aproximadamente 1h de duração e classificação indicativa para maiores de 16 anos. Estabelecida na cidade de Greendale, a atração nos apresenta Sabrina Spellman (Kiernan Shipka, de Vírus), jovem metade humana e metade bruxa. Por conta disso, a protagonista pode transitar entre o universo fantástico de seu pai ao mesmo tempo que vai à escola não-mágica local.

Sabrina luta contra o Senhor das Trevas e a maldição das 13 bruxas de Greendale. (Foto: Netflix)

O conflito da história se dá quando Sabrina é forçada a escolher entre seu lado bruxo e sua parte humana. Deste modo, Sabrina se vê impelida seguir a religião de sua família, assinando o Livro da Besta, para firmar compromisso como mais uma serva do Senhor das Trevas. Enquanto isso, suas tias Hilda (Lucy Davis, de Mulher-Maravilha) e Zelda (Miranda Otto, de O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei) a aconselham sobre os perigos deste batismo sombrio. Afinal, para ganhar os poderes do Senhor das Trevas, Sabrina deve se entregar de corpo e alma.

Em contrapartida, Sabrina deverá abdicar de sua vida mortal no colégio Baxter High, o que significa se despedir de seu namorado, Harvey Kinkle (Ross Lynch, de Austin & Ally) – descendente de caçadores de bruxas –, e das amigas, Rosalind Walker (Jaz Sinclair, de Uma Dobra no Tempo) – que logo se revela uma vidente sob maldição – e Susie Putnam (Lachlan Watson, de O Que Realmente Importa) – em debate sobre identidade de gênero. Mesmo na escola, a garota lida com a influência de Mary Wardwell (Michelle Gomez, de Doctor Who), um demônio manipulador.

Uma das ausências mais sentidas foram os conselhos de Salém, gato que não fala nesta versão. (Foto: Netflix)

A trama toda se constrói sobre a decisão de Sabrina, mas ainda assim encontra espaço para alguns episódios macabros sobre exorcismos e assombrações, o que movimenta a temporada e diverte. Contudo, o foco é a crítica ao patriarcado, com a figura do Padre Faustus Blackwood (Richard Coyle, de Príncipe da Pérsia: As Areias do Tempo) demonstrando toda sua masculinidade tóxica e autoridade frágil – ou vice-versa – e a capacidade da igreja (no caso, a Igreja da Noite) em subverter valores  conforme seus interesses para ditar o que indivíduos podem ou não fazer.

Dark, representativa e provocativa, O Mundo Sombrio de Sabrina se mostra um importante acerto da Netflix.

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Henrique Almeida

Henrique Almeida

Jornalista formado pela FIAM e fundador do Boletim Nerd. Foi colaborador da Coluna Mundo Geek, da GloboNews, e foi palestrante na Campus Party Brasil. Realizou a cobertura da Comic Con Experience, Brasil Game Show e Bienal Internacional do Livro de São Paulo.

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