O Doutrinador – A Série aprimora saga de anti-herói brasileiro

Atração original do Space, O Doutrinador – A Série fez sua estreia no dia 1º de setembro no canal por assinatura, promovendo uma adaptação mais completa das histórias em quadrinhos criadas por Luciano Cunha, em uma temporada composta por sete episódios de 40 minutos. Com mais tempo e espaço, a produção desenrola a trama já contada pelo filme lançado em 2018, mas com maior complexidade e condições para explorar as motivações dos seus personagens. Apesar da repetição, a série se mostra útil para fixar o anti-herói brasileiro na cultura pop.

Diferente da versão dos gibis, a narrativa explica a história de origem de Miguel Montessanti (Kiko Pissolato, de Os Dez Mandamentos: O Filme), um agente de elite do DAE (Divisão Armada Especial), que, ao prender o governador corrupto Sandro Corrêa (Eduardo Moscovis, de O Cravo e a Rosa), desencadeia grande conspiração no alto escalão da política do Brasil. Como resultado por cumprir seu dever e a lei, o protagonista vê sua filha, Alice (Helena Luz, de Carinha de Anjo), ser baleada e falecer enquanto espera socorro num hospital público.

Miguel Montessanti decide dar um basta na impunidade de políticos corruptos. (Foto: Aline Arruda)

Revoltado pela impunidade e defasagem do sistema de saúde, Miguel decide sair do fundo do poço colocando na cova alguns dos principais inimigos do povo brasileiro – isto é, políticos e empreiteiros que manipulam as políticas e recursos públicos a seu bel prazer. Nessa jornada que questiona os conceitos de certo e errado e desafia a própria legislação, o vigilante urbano tem a ajuda da hacker ativista Nina (Tainá Medina, de Rock Story) e a cobertura do jornalista veterano Dantão (Ricardo Dantas, de A Memória que me Contam).

Embora a série foque na ação, é interessante ver como são trabalhados conceitos diferentes de vilania. Por exemplo, o empresário Antero Gomes (Carlos Betão, de Segundo Sol) é descrito como o homem a quem os senadores, deputados e vereadores servem, sempre acompanhado de seu capanga, Oliveira (Eduardo Chagas, de Passionais). Enquanto isso, o delegado Siqueira (Tuca Andrada, de Caminhos do Coração) e o seu senso moral flexível demonstra um mal incrustado até em setores que deveriam promover a segurança da sociedade.

Almejando cargos políticos, Siqueira leva corrupção à base avançada da polícia. (Foto: Space)

Além disso, o programa usa de forma criativa para representar o Brasil, mesclando pontos turísticos de São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília como se estivessem em uma cidade só. O retrato da nossa nação também pode ser visto em alguns personagens, como Júlia Machado (Helena Ranaldi, de Mulheres Apaixonadas), uma senadora que prega honestidade, e Antero Jr. (Gustavo Vaz, de Coisa Mais Linda), viciado em drogas e com personalidade fraca, que aproveita os privilégios de ser filho de um dos homens mais ricos do país.

Dirigido por Gustavo Bonafé (Legalize Já: Amizade Nunca Morre), O Doutrinador – A Série acerta por transformar o seu protagonista em alguém cativante – algo que se deve ao roteiro e à atuação de Pissolato – e pelo discurso forte contra o tradicional “jeitinho brasileiro”. Marcante desde o tema de abertura, o título merece retornar para uma 2ª temporada.

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Henrique Almeida

Henrique Almeida

Jornalista formado pela FIAM e fundador do Boletim Nerd. Foi colaborador da Coluna Mundo Geek, da GloboNews, e foi palestrante na Campus Party Brasil. Realizou a cobertura da Comic Con Experience, Brasil Game Show e Bienal Internacional do Livro de São Paulo.

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