Em entrevista, Maria Gal diz querer “aproximar novas gerações da literatura de Carolina Maria de Jesus”

Maria Gal dedicou 11 anos para tirar do papel um filme sobre Carolina Maria de Jesus. Além de interpretar a escritora, a atriz idealizou o projeto e atua como produtora, participando de decisões que vão da escolha de parceiros aos planos para levar a obra a diferentes públicos.

Em entrevista ao Boletim Nerd, ela falou sobre a preparação para o papel, a importância de retratar Carolina para além de Quarto de Despejo e o que espera que aconteça depois que o público sair do cinema.

Você lutou por esse filme por 11 anos. O que mais te fascina sobre a história de Carolina, e qual é a relevância da autora hoje?

O que mais me fascina em Carolina Maria de Jesus é a consciência extraordinária que ela tinha de si mesma“. Carolina sabia que era escritora.Mesmo diante de tantas barreiras, a escritora sabia que sua voz tinha valor e que sua obra merecia ocupar um lugar no mundo. Para a atriz, essa convicção continua atual.

Ao longo dos 11 anos de desenvolvimento, o projeto deixou de ser um sonho individual e reuniu uma rede de artistas, produtoras e parceiros. Diz também que todos que estão fazendo – e ainda podem fazer – parte desse projeto vão além de apenas ajudar na produção e distribuição do filme, pois também estão ajudando milhares de pessoas a entrarem em uma sala de cinema para conhecer uma das maiores escritoras brasileiras. “Estamos falando de uma associação entre cultura, educação, acesso, impacto, transformação social, visibilidade e legado“, disse a atriz.

Agora, Maria Gal quer ampliar seu alcance com sessões gratuitas e ações educativas. “Não faria sentido contar uma história que fala também sobre desigualdade, sonho, acesso e transformação sem pensar em como ampliar o acesso à própria obra”, afirma.

Como foi o processo para interpretar Carolina como uma pessoa complexa, e não apenas como um símbolo histórico?

Maria Gal acredita que Carolina não deve ser lembrada somente pela pobreza ou pela superação. Ela era escritora, compositora, mãe e artista – além de uma mulher inteligente, bem-humorada, ambiciosa e consciente do próprio talento. “Carolina era muito maior do que aquilo que lhe faltava”, resume.

Além disso, contou que a preparação para o papel durou mais de um ano. A atriz estudou obras além de Quarto de Despejo, percorreu caminhos que Carolina fazia em São Paulo e catou materiais nas ruas do Rio de Janeiro para se aproximar fisicamente de gestos e experiências da escritora. Seu objetivo, porém, não era afirmar que poderia reproduzir a vida dela, mas apresentar ao público sua humanidade em toda a complexidade. “Queria que, por algumas horas, encontrasse Carolina Maria de Jesus como mulher, mãe, escritora, artista e ser humano em toda a sua complexidade”, explica.

O público da cultura pop e nerd está acostumado a discutir “quem controla a narrativa” nas grandes franquias. O que muda quando uma mulher negra, além de protagonizar, também idealiza e produz a história?

Para Maria Gal, “muda tudo”. Estar na produção significa participar das decisões sobre como o filme será construído e qual caminho seguirá depois de estar pronto. Ela idealizou o projeto e hoje produz a obra ao lado de Clélia Bessa, acompanhando etapas como a captação de recursos, a formação de parcerias e a busca por circulação internacional.

A atriz também disse que estar tanto na produção quanto no elenco é fascinante. Ela ressalta que produzir não é apenas dar opiniões: “significa assumir responsabilidade. Significa ouvir, negociar, defender posições, dialogar e, muitas vezes, construir um ponto em comum em decisões muito importantes para o futuro do filme“.

Além disso, defendeu que estar nesse papel permite uma transformação muito importante da sua trajetória, de tal forma que ela não quer apenas ocupar narrativas. “Quero ajudar a idealizá-las, construí-las, financiá-las, internacionalizá-las e transformá-las em legado”, diz.

Qual foi a decisão mais importante que você tomou como produtora – e que talvez não pudesse tomar se participasse apenas como atriz?

Entre as muitas escolhas feitas ao longo do projeto, Maria Gal destaca uma que veio antes mesmo das filmagens: decidir com quais empresas a Move Maria iria se associar. Segundo ela, escolher parceiros para um longa-metragem que leva anos para ser realizado é uma decisão artística, empresarial e humana.

Carolina Maria de Jesus

Para a atriz, não interessa olhar empresas e parceiros apenas como uma fonte de recursos, pois ela deseja entender o que aquela marca deseja construir, quais valores quer deixar para a sociedade e onde é possível encontrar uma conexão genuína. “Quando essa conexão acontece, o filme ganha potência, alcance e capacidade de impacto; a empresa passa a fazer parte de uma obra cultural relevante; e o público pode ser beneficiado por ações que ultrapassam a própria experiência cinematográfica“, defende.

Como atriz, seu foco está especialmente na personagem e na obra. Como produtora, precisa pensar também na distribuição e no futuro do filme. Maria Gal espera que ele alcance milhões de pessoas, circule fora do Brasil e aproxime novas gerações da literatura de Carolina. “Quero que exista uma vida antes, durante e muito depois da estreia”, afirma a atriz.

Que livro de Carolina você gostaria que o público procurasse depois do filme, além de Quarto de Despejo?

Maria Gal gostaria que os espectadores descobrissem Casa de Alvenaria e revela ter um carinho especial por Diário de Bitita. Para ela, conhecer outros livros é uma forma de perceber a dimensão de Carolina como escritora, intelectual e artista.

Seu desejo é que o filme desperte uma curiosidade capaz de ultrapassar a sala de cinema: que alguém procure um livro, converse sobre a autora em casa ou leve sua literatura para a escola. “Meu sonho não é apenas que milhões de pessoas assistam ao nosso filme. É que, depois de assistirem, milhões de pessoas queiram conhecer Carolina Maria de Jesus.”