CCXP 2019: PJ Kaiowá traz representatividade com HQ “Eu Sou Lume”

A Guará está mudando. Como o Boletim Nerd noticiou nos últimos dias, a editora anunciou uma série de mudanças para 2020 e a principal delas é o lançamento da HQ “Eu Sou Lume“, durante a Comic Con Experience 2019. Na história, Lume é Ludmilla Gonçalves, a jovem de 16 anos que mora na comunidade Esperanza, em Mauá, e estuda no Instituto Prime, escola de elite da cidade como bolsista.

Tudo muda na vida dela após descobrir estranhos poderes elétricos e luminosos e se ver como a única força de defesa contra criaturas chamadas Trevaz. Mas a grande sacada do gibi não está só nas cenas de ação bastante dinâmicas, mas no ambiente que Milla está, como explicou o autor Péricles Júnior, o PJ Kaiowá em um bate-papo com o BN no estande da Chiaroscuro, onde sua nova obra esteve à venda.

Eu Sou Lume representa um novo direcionamento para as produções da Guará Entretenimento.

“Quando você pensa em HQ de herói, já vai viajando sobre o poder e tudo mais. Com a Lume, isso foi a última coisa que eu fiz”, conta. E isso fica evidente a cada página. É possível ver o finado rapper Sabotage em um grafite no pilar de um viaduto e uma das personagens da história, a vereadora Marcelle, parece inspirada em Marielle Franco, brutalmente assassinada junto com seu motorista em março do ano passado, no Rio de Janeiro.

Periferia resiste e Lume também

Eu Sou Lume é resistência da primeira a última página. Estudante acima da média e bolsista, a garota precisa lidar com a discriminação de colegas de escola, moradores de bairros considerados nobres e também fugir das investidas de Leko, que vive na mesma comunidade que ela e sua amiga Kezia, também bolsista no Prime. Mas, ao contrário das meninas está em busca de ascensão por meio de seus “esquemas”.

“Eu sempre tomo cuidado ao retratar a periferia e faço isso sempre mostrando como vítima, que de fato é o que ela é”, explica PJ, que já havia retratado áreas pobres das cidades em Carnívora (outra HQ dele). “Em Carnívora, o cuidado era porque se tratava de uma HQ de terror, mas eu precisava mostrar que não é a periferia que causa o terror.

Assim, Milla abre caminho com perseverança entre o pior dos dois mundos, mostrando que pode chegar aonde quiser sem precisar depender de alguém rico ou que seja influente do jeito errado para tanto, mas sim pelo seu esforço e seu talento para dança.

A postura de Lume já está dando repercussão positiva fora do papel. “Eu recebi mensagem de uma menina que se chama Ludmilla e vive no morro no Rio de Janeiro”, conta o autor, que coleciona trabalhos para o mercado americano, incluindo minisséries de Pacific Rim e Assassin’s Creed, além da arte de Penélope para a Guará Entretenimento.

No fim, Eu Sou Lume traz tudo que um fã de quadrinho procura em uma obra de herói, como reviravoltas e corporações sem escrúpulos, oferecendo um convite para conhecer melhor quem e como vivem as pessoas que moram na periferia. Depois da CCXP 2019, Eu Sou Lume será vendida em bancas pelo sistema de distribuição da Guará em 2020.

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Carlos Bazela

Carlos Bazela

Jornalista e leitor compulsivo, gosta de cerveja, café e chá preto não necessariamente nessa ordem. Fã de boas histórias, principalmente daquelas contadas por meio de desenhos e balões.

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