Midnight Nation é jornada intimista disfarçada de HQ de ação

Midnight Nation começa no momento em que o detetive David Grey encontra o corpo de um homem em um beco de Los Angeles. Ele tem a sensação de que se trata de mais do que outro assassinato motivado pelo tráfico de drogas. E suas suspeitas se confirmam após receber a dica de um morador de rua, dizendo que era amigo da vítima e que ela foi morta por estranhas figuras que circulam à noite e ninguém fala a respeito.

Ignorando a ordem de seu superior direto, Grey investiga o assunto a fundo e acaba se deparando com a morte cruel de seu informante e com os seres que aparecem quando o sol se põe: o Povo da Meia-Noite. Em luta com os estranhos demônios, o policial é gravemente ferido e acorda no hospital para descobrir que ele está agora no plano intermediário, um lugar entre o mundo dos vivos e dos mortos. Cabe agora a David Grey descobrir como voltar para o lado de cá, mas, essa tarefa promete ser bem mais confusa e complexa do que parece.

Propondo reflexões, o quadrinho apresenta mais do que violência gratuita. (Foto: Mythos)

Com um início desses, a ideia que se tem da HQ, com roteiro de J. Michael Straczinski e ilustrações de Gary Frank, é de que se trata de um thriller policial com toques de sobrenatural. Um filme de ação no papel. Porém, à medida que a história se desenrola, a testosterona da premissa vai se diluindo em uma trama sensível, que aborda temas muito mais complexos do que a aventura de um tira fantasma tentando retornar ao mundo dos vivos.

David descobre que sua alma foi perdida na luta com as criaturas chamadas errantes e ele se transformará numa delas, caso não consiga reavê-la em 11 meses. Para facilitar, a única forma de fazer isso é chegando em Nova York. A pé.

A jornada e as surpresas

Quem explica ao rapaz as regras desse mundo é a misteriosa Laurel, uma mulher descolada, inteligente e boa de briga que tem a missão de o ajudar a percorrer o caminho em busca de sua alma, do qual ninguém jamais voltou antes.

Enquanto cruza os Estados Unidos ao lado da moça, David descobre que, assim como ele, as pessoas não vão parar no plano intermediário por vontade própria. São homens, mulheres e crianças que foram se isolando do mundo a ponto de se tornarem invisíveis. Elas começam a não ser mais vistas pelas outras pessoas até mergulharem de vez na dimensão de aspecto abandonado.

O protagonista David caminha pelas sombras e passa a conhecer os esquecidos. (Foto: Mythos)

No decorrer da jornada, há conversas sobre a vida de David, como o relacionamento com sua ex-esposa e a dedicação excessiva ao trabalho, e interações com outros personagens de histórias complexas. O gibi não se torna parado, pois, os encontros com os errantes trazem bastante pancadaria em cenas bem violentas.

Com reviravoltas a cada capítulo, a obra consegue surpreender o leitor com boa frequência. Assim como David pensa que já entendeu tudo a certa parte da jornada e acaba descobrindo algum fato sobre sua condição que aumenta ainda mais seu desespero. E o nosso, enquanto viramos as 318 páginas do belo encadernado publicado pela Mythos Editora.

Com final surpreendente e passagens memoráveis, Midnight Nation: O Povo da Meia-Noite nos leva a uma saga de reflexão sobre depressão, religião e invisibilidade social. Assim como David Grey, passamos a reparar entre as frestas da nossa realidade. Um lugar que relutamos em visitar por vontade própria e que, às vezes, pode estar dentro da nossa própria cabeça.

Ficha técnica

Título: Midnight Nation: O Povo da Meia-Noite
Autores: J. Michael Straczynski (roteiro) e Gray Frank (desenhos)
Editora: Mythos
Capa: dura
Lombada: quadrada
Páginas: 318
Formato: 26,2 x 17 cm
Lançamento: março/2013.

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Carlos Bazela

Carlos Bazela

Jornalista e leitor compulsivo, gosta de cerveja, café e chá preto não necessariamente nessa ordem. Fã de boas histórias, principalmente daquelas contadas por meio de desenhos e balões.

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