Eternidade acerta onde muitos romances recentes apenas ensaiaram chegar. O filme dirigido por David Freyne encontra força justamente na disputa amorosa que estrutura sua narrativa — não como um artifício superficial, mas como um verdadeiro conflito emocional e filosófico. É impossível não lembrar de Amores Materialistas, projeto anunciado pela A24 como uma reflexão madura sobre relações e escolhas, mas que acabou ficando aquém do prometido. Eternidade, por outro lado, entrega o que aquele filme sugeria: uma história em que amar é decidir, e decidir dói.
A trama parte de uma premissa simples e poderosa. Após a morte, Joan (Elizabeth Olsen) desperta em um espaço intermediário, um tipo de além-vida organizado, quase burocrático, onde as almas têm um prazo curto para definir com quem e onde passar a eternidade. É nesse cenário que o filme se constrói, colocando a protagonista diante de dois amores igualmente legítimos: o companheiro com quem dividiu a vida adulta e o primeiro amor, interrompido cedo demais pela morte.
O mérito do roteiro está em não transformar essa escolha em um jogo de certo ou errado. Nenhum dos caminhos é tratado como superior, tampouco há vilões emocionais. O que existe é a constatação de que o amor vivido no tempo e o amor preservado na memória carregam pesos diferentes — e ambos são verdadeiros. A disputa amorosa, portanto, não é apenas entre dois homens, mas entre versões da própria Joan, entre quem ela foi, quem se tornou e quem poderia ter sido.
O espaço do além-vida funciona como mais do que cenário. Ele amplia o impacto da decisão ao retirar o conforto do “ainda há tempo”. Ali, tudo é definitivo. Escolher significa renunciar para sempre. O filme convida o espectador a refletir sobre isso com desconforto: se tivéssemos que decidir hoje onde — e com quem — passaríamos nossa eternidade, estaríamos preparados? A pergunta ecoa muito além da tela.
Olsen conduz essa angústia com precisão, entregando uma atuação contida, mas profundamente expressiva. Seus silêncios dizem tanto quanto os diálogos, reforçando a sensação de que cada passo naquele lugar pesa mais do que qualquer decisão tomada em vida. Miles Teller e Callum Turner também evitam arquétipos fáceis, compondo personagens que representam afetos distintos, não opostos.
Eternidade é, no fim das contas, um romance que entende que amar não é apenas sentir, mas escolher conscientemente, mesmo quando todas as opções parecem boas demais para serem abandonadas. Um filme delicado, honesto e emocionalmente eficaz, que transforma uma disputa amorosa em algo maior: uma reflexão sobre tempo, memória e o preço das decisões que definem quem somos — em vida ou depois dela.

