Black Hammer é uma aula sobre histórias em quadrinhos

Carlos Bazela

Eles são super-heróis, salvaram Spiral City da destruição e sumiram. Pelo menos para todo mundo. A grande verdade é que Black Hammer, Abraham Slam, Menina de Ouro, Barbalien, Talky Walky, Coronel Weird e Madame Libélula estão em uma pacata fazenda, localizada a alguns quilômetros da pequena Rockwood.

Nesse lugar, que reflete a atmosfera interiorana dos EUA, ninguém nunca ouviu falar em superseres ou ameaças interestelares. Ou seja, aparentemente, é o lugar perfeito para aposentadoria do grupo depois de décadas de serviços prestados à humanidade.

Ou seria, se eles não estivessem presos no local por um campo de força que engloba só a fazenda e o pequeno município. E não tivessem precisado encarar a morte de Black Hammer, destroçado na tentativa de atravessar o escudo, para descobrir isso. Mas, a inesperada chegada da jornalista Lucy Weber, filha do herói falecido, pode mudar tudo e enfim dar uma rota de fuga aos heróis. Mas será que sair desse mundo é a melhor alternativa?

É em volta dessa narrativa que se desenvolve Black Hammer, quadrinho escrito por Jeff Lemire, ilustrado por Dean Ormston e com cores de Dave Stewart. Aqui no Brasil, a obra foi publicada completa, em quatro volumes, pela Editora Intrínseca.

Te conheço de algum lugar

Basta algumas páginas do primeiro volume para que o leitor mergulhe de vez no clima de mistério da história e entenda o motivo dela ter vencido o Prêmio Eisner de Melhor Série Original (2017). Logo ficamos interessados no que esconde Rockwood e seus habitantes e começamos a torcer para que os personagens encontrem seu caminho.

E grande parte dessa identificação é porque todos são criados com base em personagens veteranos dos gibis. Ainda que conservem sua dose de originalidade, é possível ver quais heróis serviram de inspiração para o grupo. Barbalien, ou Mark Markz, é um refugiado marciano capaz de mudar sua aparência, como o Caçador de Marte da Liga da Justiça.

Gail Gibbons, a Menina de Ouro, é uma mulher acima dos 50 anos que assume o corpo de uma menina de 9 anos com superpoderes ao pronunciar a palavra Zafram. Sim, a história de Shazam. Só que ao contrário.

O hoje velho Abe Slam, por sua vez, foi um garoto franzino demais para lutar na Segunda Guerra Mundial, mas aprendeu a arte do Boxe para defender as ruas de Spiral City, misturando o Capitão América com o Pantera da DC. Enquanto o Black Hammer mistura as histórias do Thor com os Novos Deuses criados por Jack Kirby para a “Distinta Concorrência” da Marvel, continuando a homenagem à Era de Prata dos quadrinhos.

A história ainda tem espaço para mostrar as aventuras interplanetárias do Coronel Weird e a sua parceira robô Talky Walky e os macabros contos da Madame Libélula, em clara referência a Flash Gordon e Contos da Cripta, respectivamente.

Realismo e fantasia

Embora o clima de nostalgia seja por si só um bom motivo para ler a saga, a profundidade dos heróis de Spiral City é o que dá alma para Black Hammer. Com destaque para Barbalien, que foi exilado de Marte por ser gay, e para a Menina de Ouro, que encontra no álcool e nos cigarros conforto para encarar o fato de ser uma mulher presa em um corpo infantil, uma vez que não consegue se transformar novamente.

Alternando entre o realismo do drama e os absurdos que o gênero permite, o roteiro de Lemire vai e volta dos clichês das HQs, criando uma atmosfera familiar para o leitor. Ao mesmo tempo que bombardeia as páginas de elementos novos e boas sacadas sobre personagens e narrativas, enquanto segura o suspense do desenlace até o final.

Dessa forma, Black Hammer sai de um gibi que teria tudo para não passar de uma cópia ou de uma sátira para algo que é praticamente uma aula de como se contar uma história em quadrinhos.

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