Numa coletiva de imprensa realizada em 2023 para celebrar os 15 anos de Breaking Bad, Vince Gilligan não só revisitou o passado da série como também abriu o jogo sobre o impacto emocional de conviver tanto tempo com Walter White e sobre o estado da televisão atual. Suas respostas, que voltam a ganhar força agora com o lançamento de Pluribus, ajudam a entender por que ele decidiu se afastar, por um tempo, do universo de Albuquerque.
Logo de início, Gilligan admitiu o peso de habitar a mente de Walter White por tantos anos. Ele lembrou que, perto do fim da série, passou a enxergar o mundo com a mesma desconfiança do personagem:
“Eu estava tão dentro da cabeça do Walter White que momentos como esse aconteciam. E ficou muito escuro, e meio que me pesava. De tal forma que, quando a série terminou, eu estava triste, mas também meio aliviado. Foi como se tirassem um peso de mim.”
Essa sensação de alívio não apagou o orgulho pela obra, mas marcou claramente um ponto de virada em sua trajetória criativa.
Talvez seja hora de mais heróis-heróis
Ao comentar o cenário da televisão em 2023, Gilligan destacou a abundância de produções e a mudança de paradigma em relação ao tipo de protagonista que domina as telas. Se no início dos anos 2000 anti-heróis como Tony Soprano e Vic Mackey ainda eram exceção, hoje são praticamente uma linguagem consolidada.
“Quando comecei Breaking Bad, não havia muitos anti-heróis. Agora há um monte. E agora eu penso que talvez seja hora de mais heróis-heróis, em vez de anti-heróis. Mas é assim que é o negócio, é cíclico.”
A fala escancara o desejo de experimentar algo diferente. Em vez de repetir a fórmula do “homem comum que desce moralmente”, Gilligan parece interessado em personagens que lidam com dilemas sem necessariamente se tornarem vilões.
Sucesso, sorte e a vontade de tentar de novo
Questionado sobre como manter o público engajado tantos anos depois da estreia, Gilligan foi direto: não existe fórmula garantida.
“Às vezes, é o que chamamos de raio na garrafa. Às vezes, é só boa sorte. Breaking Bad foi um sucesso por muitos motivos, muitos deles fora do meu controle.”
Ele atribuiu o resultado principalmente ao elenco — “tínhamos ótimos atores” —, ao timing e ao fato de a série ser “um pouco diferente do que estava ao redor, mas com algumas semelhanças”. E completou que, depois de Breaking Bad e Better Call Saul, sentiu que era hora de arriscar algo realmente novo:
“Sinto que é hora de fazer algo diferente de Breaking Bad e Better Call Saul. Não porque eu não os ame, mas porque quero ver se consigo fazer de novo, criar algo novo e ter pessoas que gostem.”
Essa vontade de se provar novamente como criador é a ponte direta para projetos como Pluribus, que fogem do crime organizado e se aproximam da ficção científica e da reflexão existencial.
O desejo de criar séries que sobrevivam ao criador
Uma das respostas mais reveladoras da coletiva surgiu quando Gilligan foi perguntado sobre a longevidade de Breaking Bad. Ele citou Além da Imaginação (The Twilight Zone) como modelo de obra atemporal:
“Um dos meus shows favoritos é Twilight Zone. Saiu do ar anos antes de eu nascer, e ainda assisto episódios até hoje. É isso que eu quero. Quero que o meu trabalho viva depois de mim.”
Sem filhos, ele disse enxergar suas séries como uma espécie de legado pessoal:
“Eu não tenho filhos, mas Breaking Bad e Better Call Saul são como filhos, de certa forma. Você quer que o seu trabalho viva depois de você.”
Gilligan contou que sempre pensa em como criar algo que as pessoas queiram rever — não só assistir uma vez. E resumiu a equação com humildade: fazer o melhor trabalho possível, comunicar paixão pelo projeto e, depois disso, torcer pela sorte.
O medo saudável de voltar a Breaking Bad
Em outro momento, Gilligan foi questionado se voltaria ao universo de Breaking Bad. Ele afirmou estar muito satisfeito com os finais de Breaking Bad, Better Call Saul e do filme El Camino — justamente por isso, sente receio de revisitar esse mundo:
“Não é que eu não queira voltar a Breaking Bad, é que eu tenho medo. Não quero arruinar as lembranças das pessoas. Tivemos três oportunidades naquele universo e saímos fortes em todas.”
Para ele, insistir demais na mesma franquia pode desgastar a relação com os fãs. Ao mesmo tempo, existe a necessidade pessoal de se desafiar com histórias inéditas:
“Quero me desafiar. Quero ver se ainda tenho ideias novas. Quero ser um bom guardião de Breaking Bad e não estragar o que já foi feito.”
Entre anti-heróis, heróis e o próximo passo
O Vince Gilligan da coletiva de 2023 parecia, ao mesmo tempo, grato e inquieto. Grato pelo impacto de Breaking Bad e pelo carinho dos fãs. Inquieto com a ideia de repetir ideias, personagens e estruturas.
O resultado disso aparece agora em sua fase mais recente: projetos que saem da zona de conforto da química ilegal e se aventuram por novos gêneros, sem abandonar aquilo que ele mais gosta de explorar — moralidade, amor, sentido da existência.
Mais do que rever Breaking Bad em maratona, ouvir Gilligan falar sobre o próprio trabalho ajuda a entender por que sua obra continua viva tantos anos depois: porque, por trás de cada episódio, existe alguém que ainda se pergunta “o que mais eu posso fazer diferente?”. E, na televisão de hoje, essa pergunta segue tão necessária quanto no dia em que Walter White entrou no laboratório pela primeira vez.

