Vince Gilligan volta ao centro do debate com Pluribus, nova série de ficção científica do Apple TV+ que imagina um futuro no qual a maior parte da humanidade passa a compartilhar uma mente coletiva otimista. Apenas alguns “isolados” permanecem imunes – entre eles Carol Sturka (Rhea Seehorn), uma escritora que tenta compreender como sobreviver à desconexão num planeta onde pensar sozinho virou raridade.
A produção marca o primeiro grande projeto de Gilligan desde Better Call Saul e retoma temas que o acompanham há décadas: moralidade, comportamento humano, decisões difíceis e a busca constante por sentido num mundo imprevisível.
E, inevitavelmente, Pluribus reacende um momento marcante de 2023, quando participei da entrevista coletiva que celebrou os 15 anos de Breaking Bad. Ali, Gilligan já deixava claro como suas histórias nascem de inquietações muito pessoais.
Pluribus e a semente plantada no discurso de 2023
Na conversa com jornalistas latino-americanos, Gilligan refletiu sobre como Breaking Bad transformou sua vida – e como escrever sobre Walter White exigiu mergulhar em dilemas morais durante anos. Ele contou que, ao longo da série, começou a enxergar o mundo com a paranoia agressiva de seu protagonista, algo que se tornou emocionalmente desgastante.
Essas reflexões dialogam de forma direta com Pluribus, série que também parte de uma tensão interna: como continuar humano quando tudo à sua volta tenta te absorver?
Gilligan destacou naquela entrevista que sempre se interessou por histórias que investigam “o certo e o errado”, e que prefere acreditar que existe algum sentido por trás do caos. Pluribus segue exatamente essa linha, explorando personagens que tentam resistir ao colapso de suas próprias convicções.
Guiado por moralidade, amor e imperfeição
Durante a coletiva, Gilligan apontou que sua fascinação pela moralidade o acompanha desde seus primeiros roteiros. Ele citou que trabalhar anos dentro da mente de Walter White o levou a questionar constantemente seus próprios limites — algo que, agora, ecoa no isolamento angustiante de Pluribus.
Outro ponto que marcou a conversa foi a admiração de Gilligan pela química entre Bryan Cranston e Aaron Paul. Para ele, os dois foram fundamentais para transformar Breaking Bad no fenômeno que se tornou. Em Pluribus, Rhea Seehorn dá continuidade a essa tradição de personagens cheios de nuances, carregando a narrativa com presença e vulnerabilidade.
A ambição visual que Gilligan já antecipava
Em 2023, Gilligan comentou como a evolução das TVs – maiores, mais nítidas – permitiu que ele e sua equipe abordassem a televisão de maneira cinematográfica. Pluribus amplia esse caminho: planos amplos, atmosfera carregada e uma sensação permanente de melancolia urbana.
É a consolidação de algo que ele vinha observando há anos: “a TV pode ser tão cinematográfica quanto o cinema”.
Gilligan segue perguntando o que nos torna humanos
Quinze anos depois de Breaking Bad, e agora com Pluribus, Gilligan permanece interessado na mesma pergunta que o move desde o início: o que faz alguém cruzar – ou não cruzar – a linha entre o bem e o mal? Entre o individual e o coletivo? Entre o medo e a necessidade de se conectar?
A nova série surge como mais um capítulo dessa investigação contínua. Um mundo onde todos dividem uma única mente é, no fim, apenas mais uma forma de perguntar quem somos quando tudo à nossa volta tenta nos moldar.
E como o próprio Gilligan afirmou naquela coletiva:
“Moralidade e amor são os temas mais interessantes para explorar. Não consigo imaginar algo mais humano do que isso.”
Com Pluribus, ele prova, mais uma vez, que continua encontrando novas formas de fazer essa pergunta.

