Durante décadas, a Supergirl viveu à sombra do primo mais famoso. Embora tenha protagonizado diversas histórias desde sua criação em 1959, a personagem raramente alcançou o mesmo prestígio narrativo reservado ao Superman ou a outros grandes nomes da DC Comics. Esse cenário começou a mudar em 2021, com o lançamento de Supergirl: A Mulher do Amanhã, minissérie escrita por Tom King e ilustrada por Bilquis Evely, que rapidamente se tornou uma das obras mais elogiadas da editora nos últimos anos.
Publicada originalmente em oito edições, a HQ apresenta uma versão mais madura e introspectiva de Kara Zor-El. Longe da tradicional imagem de “versão feminina do Superman”, a história explora as experiências traumáticas que moldaram a heroína e propõe uma reflexão sobre perda, vingança e identidade.
Uma jornada espacial inspirada em faroestes
A trama começa quando Kara, celebrando seu aniversário em um planeta de sol vermelho – condição que anula seus poderes kryptonianos –, conhece Ruthye Marye Knoll, uma jovem alienígena que busca vingança contra o assassino de seu pai. Determinada a encontrar o criminoso Krem das Colinas Amarelas, Ruthye convence a Supergirl a acompanhá-la em uma perigosa jornada pelo espaço.
A estrutura da narrativa remete a clássicos faroestes e histórias de fantasia heroica. Muitos críticos apontaram influências de obras como Bravura Indômita, romance de Charles Portis que também acompanha uma jovem em busca de justiça pela morte do pai.
No entanto, a HQ utiliza essa premissa familiar para abordar questões mais profundas. Ao longo da viagem, Kara é constantemente confrontada por seu passado e pela dor de ter testemunhado a destruição de Krypton ainda na adolescência – uma experiência muito diferente daquela vivida por Kal-El.
Uma Supergirl diferente do Superman
Um dos aspectos mais elogiados da obra é justamente a forma como Tom King redefine a personagem. Enquanto o Superman deixou Krypton ainda bebê e foi criado na Terra, Kara passou anos vivendo em seu planeta natal antes da catástrofe que extinguiu sua civilização.
Essa diferença, muitas vezes subutilizada em histórias anteriores, torna-se o centro da narrativa. A personagem carrega lembranças concretas de sua cultura, de sua família e do mundo que perdeu. O resultado é uma heroína mais marcada pelo trauma, mas também mais humana em suas dúvidas e contradições.
Ao longo da série, King apresenta uma Supergirl que tenta equilibrar sua enorme capacidade de fazer o bem com sentimentos de raiva, tristeza e frustração. A abordagem afasta a personagem da imagem de coadjuvante e a estabelece como protagonista de uma história própria.
A arte que ajudou a definir a obra
Grande parte do sucesso de A Mulher do Amanhã também é atribuída ao trabalho da artista brasileira Bilquis Evely. Suas ilustrações combinam cenários cósmicos grandiosos com expressões detalhadas e momentos intimistas, criando um contraste que reforça o tom épico e emocional da narrativa.
As páginas apresentam uma vasta diversidade de planetas, espécies alienígenas e paisagens espaciais, transformando a jornada de Kara e Ruthye em uma verdadeira aventura intergaláctica. A arte recebeu elogios de leitores e críticos, sendo frequentemente apontada como um dos pontos altos da minissérie.
Clássico moderno
Em pouco tempo, Supergirl: A Mulher do Amanhã conquistou o status de clássico moderno entre os fãs de quadrinhos. A combinação entre roteiro sensível, construção de personagens e arte visualmente deslumbrante transformou a minissérie em uma das histórias mais relevantes da heroína.
Mais do que uma aventura espacial, a HQ representa um esforço bem-sucedido de redefinir quem é Kara Zor-El. Ao colocar seus traumas, suas escolhas e sua humanidade no centro da narrativa, a obra mostra que a Supergirl não precisa ser apenas uma extensão do Superman para se destacar.
Para muitos leitores, essa é justamente a maior conquista de A Mulher do Amanhã: provar que Kara pode carregar sozinha uma das melhores histórias já publicadas pela DC na última década.

