Adentrando no labirinto
Para aqueles que não conhecem o mito do Minotauro, ele é um monstro que, segundo a mitologia grega, foi aprisionado em um labirinto e era alimentado por sacrifícios humanos. Mas e se o monstro também fosse o responsável por construir e alimentar sua própria prisão? É a partir dessa ideia que Minotauro, novo filme de Andrey Zvyagintsev, diretor de Loveless e premiado em Cannes, constrói uma reflexão bastante inquietante sobre poder, violência e corrupção.
Ambientada na Rússia de 2022, durante o início da guerra contra a Ucrânia, a trama acompanha Gleb, um rico executivo que descobre a infidelidade da esposa, Galina. Os dois vivem em uma casa de vidro luxuosa, cuja arquitetura é repleta de reflexos, remetendo a um labirinto. Além disso, os jogos de câmera também auxiliam nessa percepção de desorientação e sensação labiríntica. Mas esse labirinto não aprisiona apenas o monstro: também se torna uma prisão para aqueles que convivem com ele.
O filme trata o cenário político e o drama do casal como se fossem duas faces da mesma moeda – ou da mesma violência. Enquanto Gleb ajuda a alimentar um sistema corrupto e autoritário, tenta sustentar a imagem de um homem bom e justo. Já quando está em casa, afunda em um relacionamento apodrecido e busca recuperar o controle que acredita ter perdido à força. Assim, a tragédia íntima dialoga diretamente com a tragédia coletiva de uma elite que prefere ignorar as atrocidades das quais protagoniza.
O Minotauro que nunca se perde
Dessa forma, Minotauro constrói uma angústia que ora se manifesta de maneira sutil, ora explode para o espectador. O labirinto – no caso, a casa de vidro – parece prestes a se estilhaçar a qualquer momento. Porém, não se engane: o monstro sabe muito bem o que faz. Entre violências diretas e indiretas, o longa mantém o espectador inquieto diante de um protagonista que insiste em se enxergar ora como herói, ora como vítima, mesmo quando é o principal responsável pelo sofrimento alheio.
Na mitologia, o Minotauro também é conhecido por nunca se perder dentro do próprio labirinto. E o mesmo acontece com Gleb. Em meio a mentiras, manipulações, violência e corrupção, o protagonista jamais se perde de quem verdadeiramente é. Pelo contrário: talvez, ao longo dessa jornada, ele até se encontre um pouco mais.
O filme faz parte da programação da 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

