Um dos destaques da 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, A Professora de Francês traz Pedro Goifman como antagonista em uma atuação premiada. Em entrevista ao Boletim Nerd, o ator conversou sobre sua experiência no longa, os desafios de dar vida ao personagem e a importância de participar de uma produção que integra a programação de um dos maiores festivais de cinema do Brasil. Confira:
O fanatismo religioso, Tomaz e A Professora de Francês
BN: Iniciando com A Professora de Francês, como você construiu um Tomaz que acredita estar fazendo o bem, sem justificar suas ações ou torná-lo uma caricatura? E além disso, como a playlist do personagem e a imersão em filmes de terror ajudaram nesse processo? Poderia compartilhar algumas músicas e filmes que te inspiraram?
PG: Esse filme fala muito sobre o perigo de não duvidar. Tomás é um personagem que pouco duvida, e, por isso, suas crenças acabam ficando perigosas. Ele opera nessa lógica, que não é a do bem e do mal, mas sim da fé e da falta de questionamento.
Geralmente, quando um antagonista é caricato, ele se distancia do espectador, e por isso faz com que nós paremos de pensar sobre nós e identifiquemos aquela figura como o mal. Não queria produzir isso. É um filme que articula problemas estruturais.
A principal referência cinematográfica foi O Bebê de Rosemary e fiz uma playlist inteira, mas fui acessar agora para pensar em uma música para compartilhar e a que saltou foi “Where The Wild Roses Grow”, do Nick Cave.

BN: A Professora de Francês usa o terror para abordar fanatismo religioso, homofobia e controle dos corpos. O que esse gênero permite revelar sobre violências tão presentes na realidade brasileira que um drama mais realista talvez não alcançasse?
PG: O terror social permite revelar como essas dinâmicas estruturais representam na vida real experiências de horror para os corpos controlados e violentados. O gênero evidencia isso. Entretanto, não estamos falando de um filme caricato, então apesar de não ser um drama, ele muitas vezes é bem realista.
BN: Você já disse que deseja criar obras que tragam mais perguntas do que respostas. Que pergunta gostaria que A Professora de Francês deixasse no público?
PG: Se eu disser, a própria pergunta vira uma resposta. Devolvo: o que A Professora de Francês deixou em você?
O cinema brasileiro e Pedro Goifman
BN: Em um momento de grande visibilidade do cinema brasileiro, que espaço você acredita que filmes mais autorais e provocadores podem conquistar junto ao grande público?
PG: Sinto que esse filme pode ter um apelo popular forte. Depois dos circuitos dos festivais ele vai entrar em cartaz e, posteriormente, deve entrar em streaming. Nessas duas etapas o público menos cinéfilo deve assistir e veremos como A Professora de Francês vai tocá-lo. Não o vejo como um filme inacessível, apesar de independente, provocador e autoral.
Por outro lado, acho que é importante que todo o tipo de cinema seja feito.Inclusive o que não necessariamente busca “conquistar o grande público”. Cinema é arte. Isso não pode ser esquecido. Não é porque um filme não foi recorde de audiência que ele não tem importância. A arte precisa de experimentação e isso precisa ser previsto.
Agora nós estamos em um momento importante de decisão do povo brasileiro sobre qual projeto cultural nós queremos. Um projeto de construção de um cinema múltiplo, descentralizado e forte; ou um projeto de um grupo específico, que coloca a cultura como arma para defender o que muitas vezes é indefensável e é usado para cometer crimes. Um ecossistema cultural complexo versus o Dark Horse.

BN: O prêmio de Melhor Ator Coadjuvante no Festival do Rio mudou algo na maneira como você enxerga este momento da carreira?
PG: Desde que fui convidado e li o roteiro, já sabia que esse filme seria importante para minha carreira. Mas é claro que um prêmio é gostoso de receber. Dá um gás. E espero que isso se converta em mais oportunidades de fazer o que mais amo: um cinema que me permite criar, pirar. Além disso, é importante dizer também que o filme está tendo uma trajetória super bonita: passamos por San Sebastián, fomos para o Festival do Rio, Mostra de São Paulo, e agora seguimos para Mar del Plata, Chéries-Chéris na França, e para o Mix Brasil. E isso aponta que está havendo um interesse para filmes políticos ousados, o que é importantíssimo.
De um culto à medicina e muito além!
MED foi uma experiência muito importante para mim. O Rafa é um jovem que está em um momento de tomar decisões e pegar as rédeas de sua vida, o que é duro para ele. Precisa decidir entre seguir a tradição familiar ou seguir o que ama.
A série se passa em um hospital universitário público e debate questões do SUS (além de outros temas como racismo e masculinidades), mostrando a importância da saúde pública e universal. É um tema urgente nesse momento e estou muito contente com o lançamento. Espero que seja em breve.

Agora sobre essa minha nova fase na carreira, o público pode esperar personagens cada vez mais diferentes entre si e em linguagens diferentes. Como artista, eu gosto de explorar tudo o que der. Além de MED e da circulação em festivais e depois em cinema de A Professora de Francês, vou seguir distribuindo o curta-metragem “Adrenalina”, que dirigi; já fiz o longa “Não Nasci Pra Esta Cidade”, com direção de Gabriel Di Giacomo, em que interpreto João Rato, um dos protagonistas; e estou filmando “Plim”, longa metragem dirigido pela Júlia Blaz
Também estou me preparando para viver outros personagens que ainda não posso contar, mas que tenho certeza que vão surpreender. Muito animado para compartilhar tudo!

