Mostra SP: “Fjord” é um desafio à ética, moral e fé

Até onde vai a liberdade de uma família para criar seus filhos? E quando a proteção do Estado passa dos limites pelas próprias visões de Ética e moral? Vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes de 2026, Fjord, do diretor romeno Cristian Mungiu, chega à 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Com uma história extremamente provocativa, o filme transforma um drama familiar em uma reflexão sobre moralidade, religião e justiça.

A trama acompanha Mihai (Sebastian Stan) e Lisbet (Renate Reinsve), um casal extremamente religioso que se muda da Romênia para uma pequena cidade na Noruega com seus cinco filhos. A família logo desperta estranhamento na comunidade por suas crenças pra lá de conservadoras, que incluem ideias preconceituosas e homofóbicas reproduzidas até pelas próprias crianças. Quando uma das filhas aparece na escola com hematomas, surgem suspeitas de agressão, e os serviços de proteção infantil passam a investigar o casal. A situação rapidamente se transforma em um pesadelo, com os pais enfrentando uma longa batalha para recuperar os filhos.

Afinal, quem está certo em Fjord?

O maior acerto de Fjord está em sua deliciosa ambiguidade moral. O filme não tenta transformar seus protagonistas em vítimas perfeitas, muito menos justificar suas convicções preconceituosas. Pelo contrário, explora o quanto o fanatismo religioso pode ser prejudicial às crianças, principalmente quando elas começam a reproduzir os preconceitos dos próprios pais. Mas será que isso justifica um tratamento mais rigoroso diante de acusações de violência? É justamente nesse conflito que o longa deixa o espectador com uma pulga atrás da orelha, questionando não apenas as atitudes daquela família, mas também se está realmente torcendo pelo lado certo.

Enquanto questiona a moralidade dos personagens, Fjord também coloca em xeque a ética das instituições que deveriam protegê-los. Afinal, até que ponto uma instituição pode deixar suas próprias convicções interferirem naquilo que deveria ser um julgamento justo?

Fjord

É justamente nessas dúvidas que o roteiro brilha. Ao mesmo tempo que ficamos indignados com o sofrimento do casal e questionamos a atuação das instituições, somos convidados a pensar se aquelas crianças não poderiam ter uma vida melhor em famílias mais abertas e acolhedoras. E, quando começamos a acreditar que encontramos a resposta, o filme apresenta novos argumentos que nos fazem reconsiderar tudo. Fjord não quer necessariamente que concordemos com seus protagonistas, mas que sejamos capazes de reconhecer uma possível injustiça mesmo quando ela atinge pessoas com quem discordamos profundamente.

As altas nuances dos fiordes

Sebastian Stan e Renate Reinsve estão espetaculares em seus papéis. Stan, praticamente irreconhecível, desaparece dentro de um personagem rígido, conservador e cheio de contradições. Enquanto isso, Reinsve entrega uma atuação igualmente poderosa, equilibrando desespero, fé e fragilidade. Os dois sustentam o peso emocional da história e tornam ainda mais difícil estabelecer um julgamento definitivo e concreto sobre seus personagens.

Mesmo com quase duas horas e meia de duração, Fjord mantém um ritmo agradável e envolvente, transformando discussões familiares, conflitos institucionais e diferenças culturais em momentos de enorme tensão. Não precisa de grandes reviravoltas para prender o espectador: basta colocar duas visões de mundo frente a frente e permitir que suas contradições façam o resto.

No fim, Fjord é um daqueles filmes que continuam provocando discussões muito depois dos créditos. Afinal, é fácil defender justiça, liberdade e tolerância quando estamos falando de pessoas com quem concordamos. Mas e quando precisamos defender esses mesmos princípios para alguém cujos valores consideramos profundamente errados? Talvez seja justamente aí que nossa própria fé, ética e moralidade encontre seu maior desafio.

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