Diferente de J. K. Rowling, saga Harry Potter ainda tem muito a ensinar

Uma geração que vai muito além de saber as falas dos filmes ou as linhas dos livros de cor, quem cresceu lendo J. K. Rowling ou acompanhando os filmes aprendeu muito mais que feitiços. São ensinamentos como amor, tolerância e empatia, que em tempos tão sombrios e incertos são sempre bons relembrar, seja você um jovem trouxa ou até mesmo autora de uma grande saga.

Vamos começar com Harry Potter, o protagonista. Deixado na porta da casa de seus tios trouxas (não-mágicos) Harry cresceu sem amor ou afeto. Ele conhecia apenas o desprezo dos tios e o medo do que ele pudesse se tornar. “Tio Válter, por exemplo, que se dizia um “cidadão de bem” e “normal” acreditava que a natureza de Harry poderia ser ignorada ou até mesmo “curada” como é visto neste trecho:

“– Agora escute aqui moleque – vociferou –, aceito que você seja meio estranho, provavelmente  nada que uma boa surra não pudesse ter curado, e quanto aos seus pais , bem, eles eram excêntricos , não há como negar, e o mundo está melhor sem eles, receberam o que mereciam por se meter com essa gente dada a bruxarias, foi o que previ, sempre soube que iam acabar mal.”

Harry Potter e a Pedra Filosofal, p.53

E se a saga Harry Potter nos ensinou algo, é que não devemos ter vergonha do quem somos, seja puro sangue, mestiço ou nascido bruxo, não é uma surra que vai fazer mudar nossa natureza. Harry poderia ter se tornado um bruxo cruel, se vingar daqueles que o maltrataram a vida toda. Porém, aprendemos junto com ele que o amor é a melhor solução, e foi isso que ele encontrou com a família Weasley, com Rony, Hermione e tantos outros personagens que estiveram ao lado. Ao longo de sete volumes, os livros mostram que o amor é o feitiço mais poderoso de todos.

E que exemplo melhor de tolerância do que a inteligente bruxa Hermione Granger ? Hermione é nascida trouxa, ou seja, vem de uma família que não há bruxos e isso é motivo de preconceito entre a comunidade mágica. Todavia, isso não abala a jovem que logo se torna uma das alunas mais brilhantes de Hogwarts.

J.K. Rowling tem decepcionado os fãs por fala transfóbica no Twitter.

Em Harry Potter e o Cálice de Fogo, aprendemos que é preciso tolerância e respeito não só entre os bruxos, mas com as criaturas mágicas também. Ao descobrir que Elfos Domésticos trabalham nas cozinhas da escola de magia sem nenhum direito trabalhista, Hermione cria o F. A. L. E. (Fundo de Apoio à libertação dos Elfos), que, infelizmente, foi motivo de desdém por parte dos alunos, incluindo Ron e Harry. A garota não desiste e até começa a tricotar vários e vários pares de meias e roupas para que o Elfos achem e sejam libertados. Hermione é um dos maiores exemplos de empatia que os livros possuem. Ela faz parte de uma minoria e exige respeito e igualdade diante de outros bruxos. Por mais que seja brilhante, ela nunca usa sua inteligência como algo superior, pois está sempre disposta a ajudar quem precisa.

O ser humano não está livre de preconceitos. É preciso vivência e aprendizado para lidar com julgamentos e não repeti-los. Um exemplo dentro da saga é Rony, que nunca seria considerado um vilão ou uma pessoa má, mas tem seus preconceitos. A forma que Hermione trata os Elfos Domésticos, querendo sua libertação, é algo visto por Rony como uma atitude ridícula. Essa sua visão é de um bruxo puro-sangue que recebeu o ensinamento de que criaturas mágicas não estão no mesmo nível que bruxos. Mas, em Harry Potter e as Relíquias da Morte é possível notar uma mudança em seu pensamento:

“– Calma aí um instante! – Disse Rony com energia – Esquecemos alguém!

– Quem? – Perguntou Hermione

– Os Elfos Domésticos devem estar lá embaixo na cozinha, não?

– Você quer dizer que devíamos pôr os Elfos para lutar? – Perguntou Harry

– Não – respondeu Rony sério –, devíamos dizer a eles para dar o fora. Não queremos outros Dobbys, não é? Não podemos mandá-los morrer por nós”

Harry Potter e as Relíquias da Morte, p. 486

Assim como Rony, estamos todos dispostos a escutar, analisar e aprender que o mundo está mudando, e isso é bom. Bruxos e Elfos podem viver em sociedade, assim como o mundo dos trouxas pode aceitar pessoas de diferentes raças, origens e orientações sexuais, seja como Harry e escolha o caminho do amor, ou como Hermione que luta por justiça e igualdade, ou se você ainda não entende as mudanças do mundo, faça como o Rony, esteja a disposto a escutar e avaliar possíveis preconceitos. Em um mundo de Voldemorts e Umbridges, seja como o trio de ouro.

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Mariana Almeida

Mariana Almeida

Formada pela Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts. Agora, como estudante de Letras pela USP, divide seu tempo entre leituras de HQs, Machado de Assis ou companion do Doctor.

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