Mostra SP: “A Professora de Francês” transforma preconceito em terror

O terror nem sempre precisa de monstros aterrorizantes ou sustos gratuitos para se fazer assustar. Às vezes, basta apenas olhar para a própria realidade que a inspiração vem. Em cartaz na 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, A Professora de Francês, dirigido por Ricardo Alves Jr., é um terror brasileiro que transforma o preconceito e a intolerância em uma experiência angustiante. O filme aposta na sutileza e no subtexto para construir uma tensão que cresce aos poucos, silenciosamente, como o ódio de outrem.

A trama acompanha Graça (Grace Passô), uma professora de francês que vive em Belo Horizonte com sua namorada. Após uma emergência de saúde na família, ela retorna à cidadezinha distante onde cresceu e acaba se reaproximando de vizinhos que, agora, estão agindo mais estranhos que o normal. Aos poucos, aquilo que parecia apenas um ambiente familiar e acolhedor – com leves toques de desconfortos – revela uma realidade muito mais perturbadora, marcada por uma intolerância ora sutil, ora evidente.

Quando o verdadeiro monstro está ao seu lado

A Professora de Francês conversa diretamente com os tempos em que vivemos. Dessa forma, transforma uma sociedade preconceituosa e cruel em um culto maligno, no qual as próprias convicções justificam as atrocidades. Afinal, para algumas pessoas, os maiores monstros podem estar justamente ao seu lado, escondidos atrás de sorrisos e de um ódio silencioso que por vezes fala alto demais.

A Professora de Francês

É nesse cenário que o filme encontra sua maior força. Enquanto alguns podem simplesmente viver suas vidas, outros precisam temer pela própria segurança apenas por existirem sob as próprias diferenças. O longa explora essa violência sem precisar escancará-la a todo momento, permitindo que olhares, silêncios e atitudes aparentemente banais carreguem um desconforto crescente. Alguns momentos são tão tensos que chegam a deixar o espectador sem fôlego, mesmo quando parece que não acontece muito diante da câmera.

Outro grande destaque está nas atuações de Grace Passô e Pedro Goifman, que estão incríveis em seus papéis e fazem toda a diferença na construção do horror. Ambos dão vida a personagens que são tudo, menos rasos, explorando contradições, sentimentos e intenções que nem sempre ficam claros para o espectador. O desenvolvimento da relação entre os dois, marcada por perspectivas e convicções opostas, dá vida à trama e torna seus conflitos ainda mais inquietantes.

A Professora de Francês e a intolerância nossa de cada dia

A Professora de Francês, portanto se destaca como um terror sáfico que prefere a tensão psicológica aos sustos gratuitos. A produção se apoia no realismo, mas permite alguns exageros que tornam a experiência ainda mais perturbadora. Afinal, aquilo que pode parecer absurdo ou exagerado para parte do público representa, para tantas outras pessoas, uma realidade assustadoramente próxima da realidade.

No fim, o filme encontra seu horror justamente naquilo que deveria ser mais humano: a convivência. Dessa forma, A Professora de Francês nos lembra que, às vezes, o verdadeiro medo não está no desconhecido, mas em quem nos conhece e, ainda assim, escolhe nos odiar.

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