O novo filme do Prime Video, Corrida dos Bichos, até começa com uma proposta interessante: uma distopia brasileira em que a vida das pessoas virou, literalmente, moeda de aposta.
As qualidades mantém a liderança…
Nesse Brasil, boa parte da população sonha em enriquecer por meio da Corrida dos Bichos. Na competição televisionada, corredores com máscaras de animais disputam uma corrida pelas ruas da cidade. Porém, para participar, cada competidor precisa oferecer um amigo ou familiar como seu “seguro”. Se perder, essa pessoa paga a dívida e acaba escravizada.
No centro da história está um homem que lidera uma comunidade completamente contrária ao jogo. Quando algum corredor passa pela comunidade, os moradores o lincham, e o protagonista é o primeiro da fila. Porém, tudo muda quando sua irmã se envolve na Corrida. Para protegê-la, ele precisa fazer justamente aquilo que mais condena: entrar no jogo.
E é aí que Corrida dos Bichos começa a mostrar tanto suas qualidades quanto seus problemas.
O filme fala sobre escravidão, exploração e um sistema que transforma a vida humana em mercadoria. Descobrimos até que alguns “seguros” são enviados para laboratórios e usados como cobaias, algo extremamente comum. Ao mesmo tempo, outros são vendidos para pessoas ricas usarem como bem entenderem. São ideias pesadas, mas quase tudo aparece de maneira superficial. O filme joga conceitos interessantes na tela, mas raramente dedica tempo para realmente falar sobre eles.
Ainda assim, não dá para negar que Corrida dos Bichos tem seu brilho. A ambientação funciona, o esporte é criativo e as corridas trazem bastante energia para o filme. Porém, tal qual os participantes do jogo, os pontos positivos e negativos parecem correr para descobrir quem chama mais a atenção do espectador.

…os pontos negativos retomam a liderança da Corrida dos Bichos!
Entre os problemas, um dos que disputa primeiro lugar está na personagem interpretada por Anitta, apresentadora da Corrida dos Bichos na televisão. A cada poucos minutos surge uma nova piadoca ou trocadilho desconfortável. A vergonha alheia é tanta que fica difícil decidir o que é pior: a distopia ou os trocadilhos.
O maior problema, porém, está na construção desse mundo. Essa ideia é até bastante criativa, mas o filme apresenta tudo de maneira rasa. O mesmo acontece com boa parte dos personagens, que abraçam motivações pouco convincentes.
Até a hipocrisia do protagonista poderia render muito mais. Ele odeia a Corrida dos Bichos, mas acaba fazendo parte dela. Sua comunidade também direciona todo o ódio aos corredores, mesmo que eles sejam apenas peões de um sistema muito maior. Existe uma discussão interessante aí, mas o roteiro prefere apenas passar correndo por ela.
Isis Valverde talvez seja um dos maiores exemplos desse desperdício. Sua personagem surge extremamente promissora, mas recebe tão pouco espaço que deixa uma enorme sensação de oportunidade perdida. O restante do elenco, em grande parte, faz um trabalho razoável, mas que impressiona mais pelos grandes nomes do que pelo trabalho desenvolvido junto à direção e roteiro, que deixam a desejar e apagam seus trabalhos.
No fim, Corrida dos Bichos apresenta uma distopia complexa que parece ter muito a dizer, mas acaba não falando quase nada. É divertido, criativo e energizante quando coloca seus corredores nas ruas. Porém, falta coragem para mergulhar de verdade nas ideias que ele mesmo propõem. Por alguns momentos, o filme parece prestes a entregar uma ficção científica brasileira afiada, usando seu mundo absurdo para discutir problemas muito reais. Mas nunca chega lá. O resultado é um blockbuster brasileiro que tenta parecer mais inteligente e revolucionário do que realmente é.
Ainda diverte? Sim. Tem boas ideias? Várias. Mas, quando a corrida termina, fica difícil não pensar em tudo aquilo que poderia ter sido. Dessa forma, Corrida dos Bichos entra na competição prometendo ser diferente, mas cruza a linha de chegada como apenas mais um bicho.

