1ª temporada: Star Trek: Discovery traz guerra e personagens complexos

Criar uma série de Star Trek é um ato de ousadia. Desde que a original foi ao ar, em 1966, o universo em torno da nave Enterprise e seus tripulantes se expandiu ao ponto de conquistar uma legião de fãs. E isso, claro, levou a diversas séries derivadas que compartilharam do mesmo apreço deles, ainda que em medidas diferentes. Ou seja, gerações inteiras para decepcionar se desse errado.

Em 2017, Star Trek: Discovery saiu com toda essa pressão atrelada pelo nome que carrega, incluindo a necessidade de efeitos impecáveis dignos da computação gráfica atual, alienígenas bem caracterizados e diversos, com origens, línguas e culturas próprias; e ainda uma trama que prestasse tributo ao cânone, como menções à Enterprise e seus tripulantes, mas que atraísse novatos para as telas do streaming. Já adianto que a Netflix conseguiu tudo isso e muito mais.

Star Trek: Discovery acerta ao investir em uma forte protagonista feminina. (Foto: Jan Thijs/CBS)

Discovery tem Michael Burnham (Sonequa Martin-Green, de The Walking Dead) como protagonista. Órfã depois de um ataque Klingon, a moça – sim, apesar do nome, ela é uma mulher e isso rende bons diálogos nos episódios – foi criada em um lar no planeta Volcano por Sarek (James Frain, de O Conde de Monte Cristo) e sua esposa, a humana Amanda (Mia Kishner, de The L Word) – que são ninguém menos do que os pais de Spock. Perspicaz e inteligente, Burnham se destacou tanto que ocupa o posto de imediato na Shenzou, espaçonave da federação capitaneada por Philippa Giorgiou (Michelle Yeoh, de O Tigre e o Dragão).

Contudo, logo nos primeiros episódios, a oficial desafia as ordens e destitui sua capitã no confronto iminente contra os Klingons. O resultado disso: a Shenzou é destruída, muitos mortos e Michael viva para amargar o título de única oficial da Frota Estelar a se amotinar, além de uma sentença de prisão perpétua, claro.

Segunda chance

Tudo parece perdido para Burnham até ela ser transferida para a Discovery, uma nave recém-construída sob o comando do misterioso capitão Gabriel Lorca (Jason Isaacs, de The OA). Nesse meio tempo, eclode a guerra entre Klingon e a Federação, e a moça acaba recebendo perdão temporário para que seus conhecimentos ajudem a tripulação da nave a sobreviver ao conflito.

A USS Discovery, aliás, tem seus segredos: ela usa um propulsor experimental de base orgânica para saltar hiper-rápido a qualquer ponto do espaço. Essa habilidade promete ser crucial no combate à ferocidade dos Klingon e pode garantir uma chance real da Federação vencer a guerra.

Personagens secundários costumam roubar a cena no novo seriado. (Foto: Jan Thijs/CBS)

Nisso tudo, Michael, recebe a chance de se redimir. Mas, o caminho de volta ao topo é árduo, uma vez que sua fama já se espalhou pela Frota Estelar e a Discovery traz tripulantes presentes na Shenzou, que quase perderam suas vidas pela desobediência dela, como é o caso do imediato, o kelpiano Saru – interpretado por Doug Jones (A Forma da Água), que entrega uma ótima atuação coberto por quilos de maquiagem.

Audaciosamente moderna

Star Trek: Discovery é bem escrita até nos pequenos detalhes. Fiel ao tema da franquia, a série vai audaciosamente mais longe ao mostrar uma trama que não é necessariamente centrada na figura do capitão da nave. E até mesmo Burnham diminui seu protagonismo nas cenas com ótimos personagens coadjuvantes, como o próprio Saru.

Brilham ainda a inteligente e divertida especialista Silvia Tilly (Mary Wiseman, de Longmire), que contrapõe o cientista ranzina Paul Stamets (Anthony Rapp, do musical Rent: Os Boêmios). Stamets, ao lado do marido, o doutor Hugh Culber (Wilson Cruz, de 13 Reasons Why) – chefe da equipe médica –, compõe uma das melhores subtramas do programa, mas revelar o porquê é um spoiler dos grandes.

Além de conhecer as motivações dos aliens, vemos ótimas caracterizações e cenários. (Foto: Jan Thijs)

Até mesmo a guerra ganha outra proporção em Discovery. As motivações dos Klingon são exploradas a fundo e não existe mais o estigma dos aliens malvados sem substância. Da mesma forma que o pior dos humanos, mesmo no futuro diverso e inclusivo da série, vem à tona em episódios que colocam os personagens diante de dilemas morais e mostram que, para muitos, se o fim for vencer a guerra, os meios se justificam.

Todos esses elementos resultam em capítulos excelentes, com reviravoltas no roteiro, surpresas e momentos de tensão com forte carga dramática. Os cortes entre um e outro, aliás, aproveitam o recurso da Netflix de lançar semanalmente os quinze episódios da temporada – já disponíveis em sua totalidade.

E, como se não fosse o suficiente para fazer de Discovery uma série memorável na mitologia de Star Trek, a Enterprise está presente em alguns episódios para impressionar novatos e arrancar sorrisos e lágrimas dos fãs de longa data!

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Carlos Bazela

Carlos Bazela

Jornalista e leitor compulsivo, gosta de cerveja, café e chá preto não necessariamente nessa ordem. Fã de boas histórias, principalmente daquelas contadas por meio de desenhos e balões.

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