A franquia de Rian Johnson segue com sua fórmula de mistérios complexos e personagens intrigantes no terceiro filme, Vivo ou Morto: um Mistério Knives Out. Dessa vez adentrando em uma pequena comunidade religiosa, a trama não deixa de girar em torno de personagens ricos, excêntricos e egoístas – tal qual seus antecessores.
No longa, um jovem padre é enviado para trabalhar em uma igreja polêmica, em uma pequena comunidade. Ali, suas convicções são colocadas em choque contra o dono da igreja e seus fiéis, cujo extremismo os leva para o caminho oposto aos da religião. Mas tudo muda quando um assassinato impossível acontece, e o principal suspeito é o protagonista.
Um dueto de protagonistas em um crime impossível
A trama de “Vivo ou Morto” gira em torno de um crime que parece ser impossível. E é aí que entra o detetive Benoit Blanc, interpretado por Daniel Craig, que se torna a última esperança para a resolução.
Blanc continua a ser uma presença única e carismática, com seu jeito excêntrico e suas deduções impressionantes. Além disso, o filme também acerta em oferecer muito mais do que o simples whodunnit. No filme, Blanc se vê em situações que o forçam a questionar suas próprias crenças e convicções, adicionando uma camada de vulnerabilidade ao personagem.

No entanto, dividindo os holofotes com ele, o grande destaque é Josh O’Connor, que traz profundidade e uma nova energia ao filme com sua interpretação. Seu personagem é uma mistura de fé inabalável e dúvidas internas. Isso cria um contraste fascinante com o método mais lógico e cínico de Blanc, se tornando o coração dessa história. O’Connor constrói uma tensão emocional que parte da dualidade entre fé e razão, criando um espaço interessante para a história se desenrolar.
O mistério, por sua vez, se intensifica à medida que novas pistas surgem, desafiando tanto o protagonista quanto o próprio público. O filme joga com a ideia de um crime impossível, e isso faz com que a experiência de assistir seja uma montanha-russa de dúvidas e surpresas. Com isso em muitos momentos, até o detetive Benoit Blanc, normalmente infalível, parece perdido em suas próprias deduções.
Elenco afiado que coloca o dedo na ferida
Um dos grandes acertos de “Vivo ou Morto” está em seu elenco, que é simplesmente sublime. Repleto de grandes nomes, o filme se beneficia de atuações precisas, que elevam o material e tornam a experiência ainda mais marcante. Cada ator parece plenamente consciente do papel simbólico que seu personagem desempenha dentro da crítica social proposta por Rian Johnson. Com isso, entregam performances que vão além da caricatura e flertam com o desconforto.
Mais do que isso, o conjunto de personagens funciona como um retrato perturbador do mau uso da religião quando levada ao extremismo. Há a figura que transforma a fé em único propósito de vida, anulando qualquer senso crítico ou empatia. Ou o personagem que instrumentaliza a religião para alimentar rancores pessoais, justificando ódio e ressentimento sob a ótica da moral divina. E também queles que utilizam a fé como mecanismo de controle, seja social, emocional ou psicológico, manipulando discursos religiosos para manter poder e obediência.
Também há quem veja a religião apenas como um meio de vitalização pessoal. Ou, de forma ainda mais oportunista, como um caminho para alcançar milagres específicos – uma fé utilitária, negociável, que existe apenas enquanto serve aos próprios desejos.

Esses arquétipos enriquecem bastante a trama e o mistério em si. Além disso, também reforçam a crítica ao esvaziamento moral da religião quando ela passa a ser apenas uma ferramenta.
O resultado é um elenco que sustenta o discurso temático do filme com força e coerência. Dessa forma, fazem com que cada interação carregue camadas simbólicas e tensões latentes.
Religião, fé e moralidade: o diferencial de “Vivo ou Morto”
Um dos aspectos mais intrigantes de “Vivo ou Morto” é o uso da religião como uma metáfora para o dilema central do filme. A discussão entre fé e razão não é apenas uma discussão filosófica; ela é apresentada como um tema central e omnipresente, refletindo-se tanto nas ações dos personagens quanto na própria resolução do mistério. A figura do padre, interpretado por O’Connor, simboliza a luta interna entre seguir uma moralidade baseada em fé e a necessidade de confrontar a realidade de forma racional e objetiva.
O filme se aprofunda nas complexidades da moralidade, mostrando que, assim como o mistério que Blanc tenta resolver, as respostas nem sempre são simples ou claras. A fé cega e a busca pela verdade tornam-se dois polos que, muitas vezes, se colidem, criando uma tensão que permeia toda a narrativa.
Mais envolvente que o segundo, mas sem superar o primeiro
Vivo ou Morto sem dúvida se destaca em relação ao segundo filme da série, Glass Onion, que, embora interessante, não conseguiu capturar a magia do primeiro. Este terceiro filme faz um excelente trabalho em criar um mistério envolvente e em explorar as interações entre personagens complexos, como o padre e Benoit Blanc. As reviravoltas são bem orquestradas, e o mistério, embora desafiador, nunca perde o ritmo.

Porém, é impossível ignorar que Corta a Carta é uma obra-prima. Seu impacto no gênero whodunnit foi imenso, e, apesar de “Vivo ou Morto” ser muito mais envolvente que Glass Onion, ele ainda não consegue atingir o mesmo nível de genialidade do primeiro filme. A comparação é inevitável, já que Corta a Carta estabeleceu um padrão altíssimo, e qualquer continuação sempre teria o peso de tentar igualar essa excelência.
E o culpado é…
Vivo ou Morto: um Mistério Knives Out é uma excelente adição à franquia, com uma trama intrigante, personagens complexos e uma reflexão profunda sobre fé, moralidade e verdade. Embora não alcance o brilho de Knives Out, o filme é claramente superior ao segundo capítulo da série e continua a provar que o gênero whodunnit tem muito a oferecer quando combinado com a direção habilidosa de Rian Johnson. A química entre Daniel Craig e Josh O’Connor é o destaque, criando um suspense que mantém o espectador intrigado até o último minuto.
Se você é fã de mistérios inteligentes, com personagens multifacetados e uma boa dose de crítica social, Vivo ou Morto é uma experiência cinematográfica que vale a pena ser vivida.

