Tenebris Somnia é daqueles jogos que chamam a atenção justamente por fugir do formato mais convencional do terror. Desenvolvido pela Saibot Studios em parceria com o cineasta Andrés Borghi, o título mistura a estética dos jogos clássicos em 2D com sequências cinematográficas em live-action. A proposta pode parecer curiosa à primeira vista, mas é justamente essa combinação que estabelece a identidade da experiência.
A história acompanha Julia, uma protagonista envolvida em acontecimentos cada vez mais perturbadores, enquanto o jogador explora ambientes sombrios, enfrenta criaturas e tenta compreender os mistérios que cercam a narrativa. O que começa como uma experiência aparentemente simples ganha contornos mais densos conforme novas informações aparecem. E, nesse processo, o jogo demonstra que seu maior trunfo não está necessariamente nos monstros, mas na maneira como constrói desconforto e conduz o jogador por situações inesperadas.
Uma mistura de linguagens que faz diferença
A grande aposta de Tenebris Somnia está na alternância entre dois estilos visuais bastante distintos. Durante a exploração, encontramos uma aventura em pixel art com referências aos clássicos do gênero. Já nos momentos mais importantes da trama, a tela muda completamente e apresenta cenas filmadas com atores reais, cenários físicos e efeitos especiais práticos.
O resultado é bastante interessante. Em vez de tratar as sequências cinematográficas como simples interrupções, o jogo utiliza essa mudança de perspectiva para ampliar aquilo que a estética 2D não consegue mostrar. É quase como assistir a duas versões de um mesmo pesadelo, cada uma com sua própria maneira de provocar desconforto.

Existe um cuidado especial nessa produção. As cenas contam com cenários físicos, máscaras, próteses e maquiagem para dar vida às criaturas, criando imagens que seriam difíceis de reproduzir com a mesma sensação utilizando apenas animações digitais.
Essa escolha também ajuda a estabelecer uma identidade própria. A transição entre o universo pixelado e o live-action não parece uma tentativa gratuita de chamar atenção, mas parte fundamental da proposta artística. É justamente quando essas duas linguagens se encontram que o jogo apresenta alguns de seus momentos mais marcantes.
Sobreviver também exige paciência
Apesar de toda a força visual, Tenebris Somnia não depende exclusivamente de suas cenas cinematográficas. A jogabilidade segue uma estrutura tradicional de survival horror, com exploração, resolução de enigmas, gerenciamento de recursos e confrontos contra criaturas.
O controle de Julia é relativamente simples, mas isso não significa que todos os encontros sejam tranquilos. O jogador precisa escolher bem quando atacar, qual arma utilizar e quando é melhor preservar munição. Entre os equipamentos disponíveis estão um cano de ferro, uma chave inglesa e armas de fogo, cada um com características próprias.

O cano oferece maior alcance e dano, mas exige mais tempo entre os ataques. A chave inglesa, por outro lado, permite movimentos mais rápidos, embora tenha alcance reduzido. Já as armas de fogo são úteis para situações mais perigosas, mas a quantidade limitada de munição impede que sejam utilizadas sem preocupação.
Essa administração de recursos funciona bem dentro da proposta de sobrevivência, especialmente quando os confrontos exigem atenção aos movimentos dos inimigos. Entretanto, alguns problemas de movimentação podem atrapalhar o ritmo. Em determinados momentos, Julia parece ficar presa em pequenos obstáculos do cenário, mesmo quando visualmente existe espaço suficiente para continuar andando.
As escadas também podem transformar a exploração em uma experiência um pouco mais irritante do que deveria. Durante os combates, o alinhamento dos disparos nem sempre parece consistente, o que pode fazer alguns tiros errarem mesmo quando o inimigo está aparentemente na direção correta.
Não são problemas suficientes para comprometer toda a experiência, mas demonstram que a execução técnica poderia ter recebido um pouco mais de atenção. Em um jogo no qual cada recurso pode fazer diferença, essas pequenas dificuldades acabam sendo mais perceptíveis.
O terror funciona melhor quando brinca com a expectativa
O gênero de terror já explorou praticamente todas as fórmulas possíveis para assustar o público. Por isso, surpreender alguém que acompanha esse tipo de produção pode ser uma tarefa complicada. Tenebris Somnia, entretanto, encontra bons caminhos para construir tensão sem depender o tempo inteiro de sustos repentinos.
A ambientação tem papel fundamental nesse processo. Os corredores escuros, os ambientes aparentemente abandonados e a presença constante de criaturas ajudam a criar uma sensação de vulnerabilidade. O jogador nunca tem certeza absoluta de que está em segurança, mesmo quando já conhece determinado ambiente.

Os sustos mais eficientes são justamente aqueles que trabalham com essa familiaridade. O jogo apresenta situações nas quais aprendemos a reconhecer determinados padrões e, quando começamos a agir no automático, altera as expectativas. É uma maneira interessante de utilizar o próprio conhecimento do jogador contra ele.
O terror psicológico também merece destaque. Algumas situações são desconfortáveis não apenas pelo que aparece na tela, mas pelo contexto em que acontecem. A narrativa aborda temas pesados e emocionalmente perturbadores, sem transformar tudo em uma sequência de monstros e perseguições.
É importante mencionar que o jogo não economiza em violência, imagens grotescas e assuntos delicados. Portanto, quem procura uma experiência de terror mais leve pode encontrar momentos bastante desconfortáveis.
Outro ponto positivo é o trabalho com o som. A combinação entre ambientação, efeitos e momentos de silêncio contribui para aumentar a tensão. Nem sempre é necessário colocar uma criatura na frente do jogador para transmitir a sensação de que alguma coisa está errada.
Uma história que ganha força conforme as peças se encaixam
Se os elementos visuais são responsáveis por despertar a curiosidade, é a narrativa que sustenta boa parte da experiência. Julia começa sua jornada tentando entender os pesadelos envolvendo seu ex-namorado, Ivan. A visita ao apartamento dele, inicialmente motivada pela preocupação, acaba levando a protagonista a situações muito mais perigosas do que poderia imaginar.
A história não entrega todas as respostas imediatamente. Conforme avançamos, novas informações modificam a maneira como enxergamos os acontecimentos anteriores. Aquilo que parecia ter uma explicação simples começa a apresentar outras possibilidades, criando uma narrativa que exige atenção aos diálogos, aos ambientes e às sequências cinematográficas.
O relacionamento entre os personagens também é importante para o desenvolvimento da trama. Existe uma dimensão emocional que ultrapassa a ameaça sobrenatural, fazendo com que determinados acontecimentos tenham um peso maior do que simplesmente sobreviver ao próximo encontro.
Por outro lado, o roteiro às vezes prefere explicar suas ideias de maneira bastante direta. Quem gosta de histórias que deixam espaço para interpretações pode sentir falta de um pouco mais de sutileza. Ainda assim, essa escolha ajuda a manter os acontecimentos compreensíveis, especialmente considerando a quantidade de elementos apresentados.
A experiência também não é particularmente longa. O tempo necessário para terminar a campanha varia conforme a habilidade do jogador com os enigmas, mas existe incentivo para revisitar a aventura por conta de seus quatro finais. Isso dá mais possibilidades para quem deseja descobrir outras consequências das próprias decisões.
Vale a pena jogar Tenebris Somnia?
Tenebris Somnia é uma experiência que consegue se destacar em um gênero bastante explorado. Sua combinação de pixel art com cenas em live-action não serve apenas como curiosidade visual: ela influencia diretamente a maneira como a história é apresentada e como o terror é construído.
O jogo tem algumas limitações, principalmente na movimentação e em determinados momentos do combate, mas seus acertos acabam falando mais alto. A direção cinematográfica, os efeitos práticos, a ambientação e a narrativa formam um conjunto que dificilmente passa despercebido.
Para quem gosta de terror psicológico, histórias perturbadoras e jogos que experimentam com diferentes linguagens artísticas, vale a pena dar uma chance à produção. Não é uma aventura perfeita, mas tem personalidade suficiente para permanecer na memória depois dos créditos.
Lançado em 16 de outubro de 2026, Tenebris Somnia está disponível para PC, PlayStation 5, Xbox Series X|S e Nintendo Switch 2.
