Em O Agente Secreto, Wagner Moura interpreta um professor universitário, que retorna a Recife, no carnaval de 77, para reencontrar o filho pequeno nos permeios da ditadura militar. Além de já ter estreado no Brasil, o filme já está correndo o mundo.
A produção recebeu 28 milhões de reais para o orçamento e contou com uma equipe brasileira em peso, além do apoio da Holanda, em efeitos especiais, e da França, na divulgação. Durante o festival de cinema em Cannes, deste ano, foi indicado e levou o prêmio de melhor ator e melhor direção, além de receber mais de 10 minutos de aplausos após sua exibição.
Retratos da realidade brasileira
O Agente Secreto é um mistério com jeitinho brasileiro, ele têm casa com cara de casa – que frequentávamos quando criança –, gente com cara de gente – as que vimos em álbuns de família –, e a voz do Brasil. “[…] Meus filmes nunca mudaram o sotaque, na verdade, eles têm múltiplos sotaques. O Agente Secreto tem paulista, gaúcha, alemão, pernambucano, sertanejo […]”, como comentou Kléber Mendonça Filho, diretor do longa, em entrevista coletiva.
A produção ambientada com fundo da ditadura não cita em palavras o período, porém, reflete na integração dos atores com a cenografia. As cenas com figuras de autoridade, como o delegado (Robério Diógenes) e seus filhos, escancaram uma volta do regime “coronelismo” na região, as pessoas não questionam, apenas concordam e temem os agentes de estado.
Influências e referências
A direção de Kléber inquieta, cinéfilo como é, mistura características de clássicos, gêneros e do Brasil, para tornar o seu cinema único. Há suspense noir como de Tubarão (1975), as premissas da aflição de A Profecia (1976), o gore do terror trash dos anos 70, e até o humor de duplo sentido presente no seriado Os Trapalhões (1974).

No longa, as referências de outras obras aumentam o repertório da narrativa e refletem a memória que está sendo reconstituída, o cinema retrata o que o discurso falado não consegue alcançar, “[…] O cinema brasileiro tem uma história quase documentalista. É um cinema que nasce tentando entender “Que país é esse?” […], comentou Wagner Moura.
Crítica de O Agente Secreto
Na obra, Recife abraça a narrativa do silêncio na ditadura, em parte pelo enquadramento das cenas que coloca os personagens em fuga da câmera, deixando a cidade em primeiro plano, em outra pela magia do carnaval e do frevo, que não repele a tensão, mas aprofunda como uma constatação dolorosa do estado político.
A cena inicial traz a estrada e o fusquinha amarelo retornando para cidade palco do longa, conjuntura essencial para o intermédio da pirraça dos cabra e a sinuca de bico do personagem de Wagner Moura, que vai viver refugiado e indignado com tudo o que se passou. O flashback da chegada dos sulistas, bem conectados com o poder político, no centro de pesquisas universitário em Recife, que movimentou drasticamente a vida do professor – e sua família, mostra como houve uma divisão clara de poder público e privado, mas especialmente o simbólico.
“[…] A gente tem a obrigação de preservar a nossa memória para que cresçamos como país, para que nos entendamos, para que nos vejamos […]”, reforçou Moura.
O filme é impressionante, ele é um exemplo de memória, as que a gente lembra de cabeça e as que a gente cria, com base nos que contam para a gente. O Agente Secreto é a história do país vivida de forma expositiva, e ainda assim de relato, diferente da narrativa documental de Ainda Estou Aqui.
Sem pestanejar o longa exibe como a história do país também acontece fora do eixo Rio-São Paulo.

