Ninguém pode negar que o Charlie Brown Jr. foi uma banda que marcou uma geração inteira de brasileiros – ou talvez até mais. Suas músicas continuam sendo ouvidas e cantadas até hoje, e a morte de Chorão, em 2013, foi uma grande tragédia para a cultura pop brasileira. Mas como foi a vida do artista por trás das letras? E como era sua relação com Graziela Gonçalves enquanto ele ascendia como um dos maiores nomes do rock nacional? É essa história que Se Não Eu, Quem Vai Fazer Você Feliz?, baseado no livro de memórias da própria Graziela, tenta contar. Mas será que dá certo?
O filme, dirigido por Hugo Prata e Felipe Novaes, é bastante fraco quando analisado como uma cinebiografia de Chorão e do Charlie Brown Jr. Vemos muito pouco da criação da banda e das músicas. As coisas parecem simplesmente acontecer de uma cena e outra, dependendo de diálogos para poder contar, explicar e contextualizar ao espectador que o grupo mudou de nome, que determinada música fez sucesso ou que a carreira finalmente decolou. Porém, em um filme, a trama devia mostrar isso por si só.
Os demais integrantes também recebem pouquíssimo destaque. Além de Chorão, apenas Champignon ganha algum espaço, como se o restante da banda fosse figurante em uma história da qual também fez parte.
Chorão, Graziela e Champignon
E, falando em Champignon, sua representação é um dos aspectos mais estranhos da produção. O músico conheceu Chorão ainda aos 12 anos, quando começaram a tocar juntos, antes mesmo da formação definitiva do Charlie Brown Jr. O filme até encontra um adolescente para interpretá-lo nessa fase, mas decide manter o mesmo ator conforme o personagem envelhece, recorrendo a uma barbicha, bonés e óculos escuros para tentar disfarçar que um homem de trinta e poucos anos está sendo interpretado por uma criança. O resultado é bastante artificial e, em vários momentos, acaba tirando o espectador da história.
Já Chorão é retratado como uma pessoa extremamente difícil: egoísta, explosiva e frequentemente cruel com quem está ao seu redor. O filme relaciona esse comportamento ao consumo de drogas e álcool, à depressão e às perdas que marcaram sua vida. O problema é que, em alguns momentos, parece usar essas questões como justificativa para atitudes que mereciam uma abordagem muito mais cuidadosa. Explicar o comportamento de alguém não significa absolvê-lo de suas responsabilidades, e o longa parece esquecer que essa diferença existe.
A questão fica ainda mais curiosa quando lembramos que a história deveria ser contada pelo ponto de vista de Graziela. Nesse sentido, alguns desses defeitos até fazem mais sentido: estamos acompanhando a trajetória de Chorão a partir da perspectiva de quem viveu um relacionamento intenso e, muitas vezes, doloroso com ele. Mas o filme também não se aprofunda tanto nela quanto deveria. Em diversos momentos, acompanha Chorão mesmo quando Graziela não está presente, enquanto deixa de explorar melhor os sentimentos e as experiências da mulher que deveria conduzir essa narrativa. No fim, fica uma contradição: se a proposta é contar a história de amor dos dois, por que Graziela parece tão pouco importante?
Se não eu, quem vai fazer você feliz? Bem, a nostalgia pode até tentar…
Apesar de todos esses problemas, existe algo que Se Não Eu, Quem Vai Fazer Você Feliz? consegue fazer muito bem: despertar a nostalgia do público. Ouvir músicas que marcaram gerações enquanto acompanhamos momentos da vida de Chorão é uma experiência bastante gratificante, especialmente para quem cresceu ouvindo Charlie Brown Jr. Há um carinho evidente pela obra do artista, e reencontrar essas canções na tela certamente rende bons momentos para os fãs.
Infelizmente, o longa parece depender demais desse sentimento. Quando a nostalgia dá lugar à necessidade de construir uma narrativa consistente, suas limitações ficam muito mais claras. A produção reúne boas ideias, uma história cheia de acontecimentos e personagens importantes, mas parece incapaz de encontrar uma maneira coesa de contar tudo isso – sequer consegue se decidir como quer fazer.
Se o filme nos pergunta Se Não Eu, Quem Vai Fazer Você Feliz?, a resposta acaba sendo simples: qualquer cinebiografia que consiga tratar melhor suas próprias ideias e fazer jus à história de um dos maiores ícones do rock brasileiro. O título, portanto, se mostra uma verdadeira guerra contra si próprio, não sabendo dosar suas ideias positivas com o amadorismo das decisões que acabou por tomar, se tornando uma experiência que pode até divertir e informar de maneira superficial, mas deixa muito a desejar.
