Após anos de surpresas desagradáveis, frustrações, tramas de qualidade duvidosa e decisões no mínimo questionáveis, o DCU de James Gunn conseguiu entregar algo interessante com Cara-de-Barro, filme que tem boa história, bom protagonista e um enredo trágico – praticamente um pré-requisito para ser um vilão do Batman, mesmo que ele ainda não tenha dado as caras neste universo.
Escrevendo certo por linhas tortas
A história acompanha a trajetória ascendente de Matt Hagen, um jovem ator oriundo dos Narrows, região humilde de Gotham, cuja carreira está em franca ascensão. Contudo, a carreira do ator é interrompida quando Matt acaba se metendo onde não devia e tem seu rosto desfigurado por um chefão da máfia influente em Gotham. A partir disso, Hagen se sujeita a um tratamento experimental a fim de recuperar seu rosto, o que acaba fazendo com que ele se transforme em uma criatura lamacenta com poderes de transmutação
E quando se fala em “chefão”, em Gotham, é normal pensar em personagens importantes da mitologia criminal do Batman, Cara-de-Barro, porém, não faz o menor esforço para expandir essa mitologia nem apresentar melhor a cidade que será palco das futuras aventuras do morcego.
Apesar disso, a história de Cara-de-Barro é muito focada na tragédia pessoal de Matt Hagen e na transformação de um ator em um monstro disforme e insano, fazendo com que sua saga seja a melhor do novo DCU, apesar de personagens muito mais renomados já terem aparecido, como Supergirl e os Lanternas Verdes.
Gotham como coadjuvante
Gotham City quase sempre funciona como um personagem secundário nos quadrinhos, dada a quantidade de figuras que permeiam o rico universo do Cavaleiro das Trevas. Com isso, mesmo que o herói já tenha sido citado em outras produções, é questionável que um filme na sua cidade não se tenha uma mínima menção ao Batman.
Dessa forma, o impacto que a cidade de Gotham normalmente tem se perde, dando a sensação de que Cara-de-Barro poderia acontecer em qualquer outro lugar.
Sendo assim, Cara-de-Barro não tem uma conexão real com o universo onde está inserido, ficando isolado entre as narrativas que estão sendo contadas no universo DC, incluindo sua primeira participação em Comando das Criaturas.
Parece irônico que o melhor filme desse universo seja o de um vilão que muda de forma, pois a obra parece não ter decidido qual rosto quer apresentar aos fãs.

