Quase quarenta anos após a primeira adaptação de The Running Man, de Stephen King (publicado como Richard Bachman), O Sobrevivente (2025) finalmente faz justiça ao romance original. Se o filme de 1987 com Arnold Schwarzenegger renegava boa parte do tom distópico e político da obra, Edgar Wright surge agora com uma leitura visceral, feroz e surpreendentemente atual – entregue com autoridade por um elenco em estado de graça. No centro disso tudo está Glen Powell, em sua melhor performance no cinema.
Glen Powell encontra a fúria e o desespero de Ben Richards
O grande triunfo do novo O Sobrevivente é a intensidade emocional de Glen Powell. O ator abandona completamente o charme solar que dominou sua carreira recente para assumir a raiva crua, a anarquia e a vulnerabilidade de Ben Richards.
Powell transforma Richards em um símbolo de frustração coletiva: um homem esmagado por um sistema que transforma a pobreza em entretenimento e vidas em audiência. Sua atuação é física, desesperada e inquieta – e, ao mesmo tempo, profundamente humana. É difícil imaginar alguém que pudesse carregar o filme com tamanha combustão.
Josh Brolin, Colman Domingo e Emilia Jones elevam o elenco
O trio de coadjuvantes forma uma das espinhas dorsais mais sólidas do ano.
Josh Brolin entrega um antagonista complexo, muito longe de caricaturas. Seu personagem reflete a banalidade da crueldade institucional.
Emilia Jones interpreta com doçura e firmeza uma figura que ancora Richards à humanidade.
Colman Domingo traz camadas inesperadas de carisma e ameaça, roubando cenas sem nunca tirar o protagonismo de Powell.
É um daqueles elencos que fazem cada conflito, cada diálogo, cada respiração pesar na tela.
Edgar Wright imprime identidade e cria ação frenética
A maior surpresa está na direção. Edgar Wright, conhecido pelo ritmo musical, humor ácido e montagem hiperestilizada, faz aqui um trabalho maduro, incisivo e politicamente atento.
Sim, os elementos clássicos do diretor estão todos lá: trilha sonora marcante e integrada à linguagem visual, narrativa cadenciada por cortes ritmados, set pieces de ação coreografadas com precisão.
Mas o Wright de O Sobrevivente vai além. Ele desacelera quando necessário, abraça o desconforto e cria um futuro distópico que, paradoxalmente, parece muito reconhecível. O filme não é só adrenalina: é sobre vigilância, desigualdade, manipulação midiática e a tendência histórica de transformar sofrimento em espetáculo.
Mesmo situado no futuro, conversa diretamente com o presente.
Uma adaptação que entende Stephen King
Ao contrário da adaptação de 1987, Wright se mantém muito mais próximo do livro. O desespero econômico, o terror social, a crítica à espetacularização da violência e até o senso de urgência do romance de 1982 estão bem representados.
Ainda assim, o diretor não se limita à fidelidade: ele adapta, moderniza e traduz a essência de King para o cinema de 2025.
O resultado é um filme que respeita o material original e, ao mesmo tempo, afirma sua própria identidade.
Um dos melhores filmes do ano
O Sobrevivente (2025) não apenas supera sua versão oitentista – ele a transforma em curiosidade histórica. Edgar Wright entrega um blockbuster inteligente, barulhento e furioso, com alma de cinema político e energia de espetáculo.
E Glen Powell, em uma interpretação carregada de verdade, raiva e humanidade, consolida-se definitivamente como um dos atores mais interessantes de sua geração.
Uma das melhores adaptações de Stephen King em décadas. E, facilmente, um dos filmes do ano.

