Kraven – O Caçador (2024) chegou como mais uma tentativa da Sony de construir um universo de vilões em torno do Homem-Aranha, mas o filme dirigido por J.C. Chandor surpreende ao mirar menos no espetáculo de CGI e mais na tragédia pessoal de Sergei Kravinoff. É uma aposta ousada – e que, embora não acerte em tudo, entrega momentos interessantes ao transformar o icônico antagonista em um protagonista dividido entre sangue, legado e culpa.
A narrativa começa com a relação quebrada entre Sergei (Aaron Taylor-Johnson) e seu pai, Nikolai (Russell Crowe), figura imponente e violenta que moldou o personagem desde a infância. Essa dinâmica, marcada por trauma e expectativa, dá ao filme seu eixo emocional. Kraven não está apenas caçando inimigos: ele está perseguindo uma aprovação que nunca virá. Essa ferida aberta move o filme mais do que qualquer cena de ação.
Um anti-herói construído na dor
Aaron Taylor-Johnson entrega intensidade física e emocional. Seu Kraven é um corpo em luta constante – com o mundo e consigo mesmo. O filme tenta humanizá-lo ao mostrar suas escolhas como consequência de um passado marcado por negligência e brutalidade. Funciona nos primeiros atos, quando a história ainda está ancorada no drama familiar.
O problema é que a Sony parece ter receio de se aprofundar demais nesse material mais denso. Quando a trama deveria mergulhar no conflito psicológico de Sergei, ela opta por acelerar sequências de ação que, apesar de bem coreografadas, não carregam o peso dramático prometido no começo.
Ação estilizada que nem sempre conversa com a história
As cenas de combate refletem a brutalidade do personagem: movimentos rápidos, selvagens e com uso expressivo de violência gráfica. A classificação para maiores faz diferença e cria algumas das sequências mais cruas do universo Marvel da Sony.
Ainda assim, o filme não consegue equilibrar essa violência com o tom emocional que tenta sustentar. Em alguns momentos, a narrativa parece alternar entre dois filmes diferentes: um drama tenso sobre abandono e outro blockbuster que tenta seguir a fórmula de “vilão estiloso”.
Um elenco que merecia um roteiro mais consistente
Russell Crowe impõe presença desde a primeira cena, interpretando Nikolai como um predador frio e calculista. Ariana DeBose, como Calypso, traz charme e mistério, embora a personagem tenha menos espaço do que deveria. Alessandro Nivola aparece pouco como Rhino, mas quando surge, injeta energia na trama.
O elenco entrega. O roteiro, nem sempre.

