Anaconda (2025) entende o tipo de filme que quer ser – e não tenta esconder isso em nenhum momento. Dirigido por Tom Gormican e coescrito por Kevin Etten, o longa abandona o terror direto do clássico de 1997 e aposta em uma releitura assumidamente leve, satírica e auto-referencial. A proposta é simples e eficiente: um grupo de amigos de infância, agora atolados em crises de meia-idade, decide refazer o filme favorito da juventude. A ideia é tão absurda quanto consciente, e esse espírito meta conduz toda a narrativa.
Um grande elenco
No centro da bagunça estão Paul Rudd e Jack Black, vivendo Griff e Doug, dois melhores amigos que carregam a história com uma combinação afiada de nostalgia, humor físico e piadas sobre a própria indústria do cinema. A química entre os dois é o motor da comédia, sustentando as situações mais exageradas e até as mais toscas sem perder o ritmo.
Ao redor deles, o elenco traz nomes como Steve Zahn, Thandiwe Newton, Daniela Melchior e, em destaque, Selton Mello, que entrega um dos personagens mais carismáticos do filme como um excêntrico domador de animais que acaba conduzindo parte da expedição na selva.
É do Brasil
Selton funciona como uma verdadeira “válvula cômica” da história. Seu personagem é exagerado na medida certa, plenamente consciente do absurdo da situação e perfeitamente alinhado ao tom despretensioso da produção. Sua presença reforça o clima de aventura leve e o humor físico que dialoga diretamente com os filmes de ação dos anos 90 — justamente o período que moldou tanto os protagonistas da trama quanto o público que o filme deseja atingir.
Para o espectador brasileiro, ele adiciona uma camada imediata de identificação e simpatia, funcionando como um contraponto espirituoso à dinâmica entre Rudd e Black.
Tudo vira piada
O roteiro brinca o tempo todo com a própria franquia e com o ciclo de remakes e reboots de Hollywood. Não se trata de um simples remake, mas de uma paródia de si mesmo, recheada de comentários sobre nostalgia, fracassos profissionais, sonhos juvenis não realizados e a tentativa quase patética de recuperar alguma glória perdida. O humor oscila entre piadas sobre envelhecer, situações clássicas de aventura na selva e momentos deliberadamente constrangedores — exatamente o tipo de combinação que define a chamada comédia de tiozão.
Ok em não ser perfeito
Nem tudo funciona com a precisão de grandes sátiras do gênero, mas o filme nunca perde de vista seu objetivo principal: divertir. E nisso, Anaconda (2025) acerta. Entre referências ao longa original de 1997 — que contou com nomes como Jennifer Lopez, Ice Cube, Jon Voight e Eric Stoltz — e uma abordagem que se permite rir da própria existência, o filme constrói uma experiência confortável, consciente de seus clichês e interessada em fazer o público sair da sessão mais leve do que entrou.
No fim, o terror foi deixado de lado para dar lugar a algo talvez mais honesto: uma boa comédia de tiozão, daquelas que não pedem desculpa por existir.

