Antes de iniciarmos o desmembramento das primeiras impressões de Crystal Lake, lançada em 16 de outubro pela Universal+, lá vai um efeito borboleta que uma recém adepta ao gênero terror não esperava: o filme Sexta-Feira 13 (1980), que origina o enredo da série, não se passa em uma sexta-feira do mês do terror (outubro), mas em junho.
Já a série não se passa em uma sexta-feira especificamente. Em vez disso, retrata todo o enredo por trás dos mistérios que ficaram em aberto na franquia de filmes, lançada entre 1980 e 2009, incluindo o remake. Ou seja, em Crystal Lake, conheceremos mais sobre a relação entre Jason e sua mãe antes do afogamento, em 1957, e sobre o luto que se segue após o ocorrido.
Aqui, a produção cumpriu o que prometeu durante o painel de lançamento na New York Comic Con 2026, no qual o showrunner Brad Caleb Kane afirmou que a série seria um prelúdio da franquia, “muito mais brutal” do que os filmes, com episódios repletos de “mortes realmente criativas”. O figurino, a maquiagem e os cenários foram pontuais ao retratar não apenas os anos 50/60, mas também o gênero slasher e o formato dos filmes de terror dos anos 80 por completo.
Para quem é fã da franquia, e de boas referências, fica aquele déjà-vu com a trilha sonora, além de bons sustos (daqueles para acabar com o soluço) provocados pelos cortes secos no clímax de cada cena sanguinária. Além disso, vale destacar a atuação do elenco, especialmente a da atriz Linda Cardellini, que interpreta Pam Voorhees. De fato, houve muita raiva retratada na personagem, porém, também um sentimentalismo profundo que a conecta ao seu alter ego de “mãe-ursa”. Afinal, estamos diante de uma história repleta de assassinatos e assassinos, mas também de uma mãe de luto.
Os estágios da dor
Quando perdemos alguém, a psicologia costuma associar o luto a seis estágios: negação, raiva, barganha, depressão, aceitação e ressignificação. Em Crystal Lake, encontramos todos eles, e são esses sentimentos que marcam os pontos de virada de cada clímax da narrativa.
A negação move a trama no geral, pois o corpo de Jason nunca foi encontrado. A raiva se instala na mãe, já que o garoto é dado como morto. A barganha surge em uma tentativa de aceitação, quando Pam tenta retomar a própria vida após a perda. Porém, o sentimento de vazio é traiçoeiro e deixa espaço para que a depressão se infiltre. E, depois de tantos estágios de dor, ainda é necessário lidar com o luto e buscar um porquê para tudo aquilo ter acontecido.
Com esse enredo, temos o segundo alter ego da protagonista revelado: vingadora.
As ruínas de Crystal Lake
O acampamento estava fadado ao fracasso desde o afogamento de Jason no lago. No entanto, a ruína de Crystal Lake se concretiza por meio dos pecados de seus moradores.
Alguns exemplos retratados são a luxúria, sem hora nem lugar, entre os monitores; a preguiça da polícia local, que não dá um desfecho decente ao caso do afogamento; e a ganância dos Christy, que decidem reabrir o acampamento apenas um ano após o acidente. Há ainda o orgulho, a gula e a ira de Pam, que se manifestam em meio às mortes, na tentativa de dar sentido à própria história. E a inveja aparece em Grace, incomodada com a popularidade de Claudette, e, posteriormente, também em Pam, que passa a querer adotar Grace como filha, desejo que acaba ocasionando mais mortes.
Todos esses sentimentos, considerados “pensamentos maus”, colocam uma máscara de pecador em cada personagem da série, tornando-os “vis” e dignos de uma sentença de morte. O problema é: quem vai aplicar a sentença?
As mortes contadas
O que é possível considerar uma morte criativa? Alguém que é perfurado múltiplas vezes com uma tesoura, mas só morre depois que um facão atravessar seu crânio? Ou alguém que tem o maxilar quebrado por um batedor de carne e termina com o rosto enfiado em óleo quente? Bom, considerei ambas sangrentas, mas não diria que, entre as dez vítimas de Pam, essas foram as mais surpreendentes.
No contexto geral, a maior surpresa foi descobrir quem é a “assassina original”, responsável por ferir os primeiros monitores do acampamento Crystal Lake e levar um deles à morte. É a partir desse momento que entendemos como a lenda de Jason ganha força nos anos seguintes.
Ainda assim, foi de tirar o chapéu conhecer o passado de Pam Voorhees, digo, da Sra. Writtering, ou melhor, Pamela Scott. Quem diria que, antes de se tornar uma mãe amorosa e superprotetora, ela passava as noites de 1959 como cantora de boate?
Entretanto, ao engravidar de seu parceiro na época, o Sr. Writtering, ela interrompe a carreira após sofrer um aborto espontâneo. Ainda assim, o casal encontra meios de prosseguir com a gravidez através de procedimentos experimentais. Contudo, após o nascimento de Jason, Pam percebe que esses procedimentos podem ter sido prejudiciais ao bebê e a ela.
Manipulada pelo marido e pelos médicos, Pam se sente culpada pela aparência do filho e exausta com a maternidade, mas, nem por um instante, deixa de amá-lo incondicionalmente. É esse amor que lhe dá forças para despertar de uma vida com aparência de comercial de margarina e encarar a realidade que o filho está vivendo.
Talvez essa seja a morte mais emblemática de todas: a de Pamela Writtering. Afinal, é quando essa mulher desaparece que nasce Pam Voorhees.

