Habeas Corpus: a Justiça brasileira no banco do réu

Habeas Corpus: a Justiça brasileira no banco do réu
Foto: Netflix

A nova série nacional da Netflix reúne um elenco de peso para explorar o meio judiciário brasileiro, mas logo mostra que pretende ir muito além de uma simples série de advogados. Habeas Corpus constrói uma trama extremamente interessante para debater o que é justiça, quem tem acesso a ela e, principalmente, a quem ela realmente serve no Brasil.

A história acompanha Inez Franco, uma respeitada professora de Direito e ex-advogada criminalista que cria um grupo de revisão criminal com seus alunos. O primeiro caso envolve Jonathan, um jovem que está preso há seis anos e afirma ter sido condenado por um crime que não cometeu. Entre os estudantes está Marina, uma jovem brilhante que esconde motivos muito pessoais para participar daquela investigação. A produção se inspira no trabalho do Innocence Project Brasil, organização dedicada a investigar possíveis condenações injustas.

Todos de pé para os nomes de Habeas Corpus

Marjorie Estiano dá vida a uma protagonista com tantas camadas que chega até a surpreender. Inez carrega culpas, convicções e contradições que se revelam aos poucos, em um desenvolvimento capaz de deixar qualquer espectador atento fascinado. Já Any Gabrielly encontra em Marina uma personagem tão interessante quanto. Ela esconde algumas de suas cartas enquanto revela outras, equilibrando dúvida razoável e uma moralidade ambígua bem atrativa. É fácil torcer por Marina mesmo quando suas decisões atravessam limites questionáveis, principalmente conforme seus motivos ficam cada vez mais claros.

Porém, se esse texto fosse destacar individualmente todas as qualidades do elenco, teríamos mais páginas do que poderíamos contar. Vladimir Brichta, Danton Mello, Marisa Orth e grande elenco entregam excelentes atuações, ajudando a construir personagens que deixam a obra ainda mais fascinante. Cada um serve como uma peça da história, que se desenrola em uma busca por justiça que mal nos faz perceber os dez episódios passando.

Afinal, a quem serve a Justiça?

O segundo grande brilho de Habeas Corpus está justamente em sua trama. A história se desenrola quase como o discurso de um advogado muito convincente: apresenta argumentos, esconde informações, traz novas evidências e, quando parece ter convencido o espectador, introduz uma controvérsia capaz de fazê-lo repensar tudo. Entre culpa e inocência, justiça e vingança, ética e interesse, a série constantemente nos convida a questionar aquilo que estamos assistindo.

É verdade que traz algo de How to Get Away with Murder em sua mistura de Direito, investigação, relações pessoais e moralidade cinzenta. Porém, Habeas Corpus encontra uma identidade própria justamente ao trazer essas discussões para a realidade brasileira. Mais do que descobrir quem fez o quê, importa entender como o sistema funciona – e quem acaba esmagado por ele.

Dessa forma, Habeas Corpus faz com o universo jurídico algo semelhante ao que Sob Pressão fez com o SUS, e Emergência 53 fez ao SAMU. Ou seja, utiliza a ficção como uma janela para refletirmos sobre instituições que fazem parte do nosso dia a dia. Ao colocar o espectador dentro desse ambiente, a série transforma questões jurídicas em dilemas humanos e nos obriga a pensar sobre justiça, direitos, privilégios e valores.

Com um roteiro envolvente, personagens complexos e um elenco excepcional, Habeas Corpus tem potencial não apenas para ocupar um lugar entre as melhores séries brasileiras da Netflix, mas também entre os grandes destaques de todo seu catálogo. Afinal, poucas séries conseguem argumentar tão bem – e nos fazer repensar tudo o que cremos sobre nosso sistema criminal.

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