Exclusivo: Roteirista fala sobre crossover da Turma da Mônica e Liga da Justiça

É crossover ousado que você quer? Pois a Mauricio de Sousa Produções (MSP) e a DC Entertainment anunciaram um encontro da Turma da Mônica com a Liga da Justiça! Os garotinhos do Limoeiro devem dar de cara com os super-heróis da DC Comics somente no mês de dezembro, mas nós queimamos a largada e tivemos uma conversinha exclusiva com Flavio Teixeira de Jesus, roteirista da MSP, que nos revelou alguns detalhes desta parceria inédita!

Flavio escreve roteiros para Maurício de Sousa há 27 anos e suas histórias são sempre marcadas por inúmeras referências a elementos da cultura pop. Nerd assumido, entrou para o mundo da produção de quadrinhos aos 7 anos, quando enviou uma historinha para a Folhinha de São Paulo – na época, feita por Mauricio e sua equipe. A produção foi publicada em um espaço chamado “Futuro Artista” e, depois de 15 anos, Flavio iniciou sua carreira na MSP.

Confira a entrevista completa:

Boletim Nerd: Histórias com tantas menções ao mundo nerd sempre foram bem recebidas pela MSP ou você já enfrentou alguma dificuldade para aprovar roteiros com muitas referências a outros personagens ou artistas?

Flavio Teixeira: O Mauricio sempre fez essas homenagens e brincadeiras durante toda sua carreira. Já brincava com propagandas famosas da TV em tiras de jornais dos anos 60. Nossas paródias (principalmente nos “Clássicos do Cinema” que escrevo) são feitas com muito cuidado e carinho ao homenageado. Como são respeitosas, não denegrindo a imagem original, não existem problemas com esses easter eggs que acabam pululando nas páginas dessas edições e que com o tempo, virou uma espécie de caça ao tesouro, onde os leitores se animam a descobrir as referências ali colocadas.

Flavio Teixeira homenageou Star Wars em Coelhada Nas Estrelas. (Foto: Panini)

BN: Você chegou a comentar em algumas entrevistas que adora escrever roteiros para a série “Clássicos do Cinema”. Tem alguma dessas histórias que considere mais especial? Por quê?

FT: Eu simplesmente adoro escrever histórias, mas “Clássicos do Cinema” têm um sabor extra especial. Eu sou um cinéfilo inveterado, vou muito ao cinema, adoro séries e animações. E eu assisto a um filme já pensando na possibilidade dele se transformar num “Clássicos do Cinema”, calculando qual personagem da turma vai se encaixar com aquele da telona e como posso deixar a história mais coerente com o estilo da Turma da Mônica.

É realmente uma realização pessoal e profissional! Por isso, é difícil dizer qual é mais especial, mas, como fã absurdo de Star Wars, Coelhada nas Estrelas tem um lugar especial no meu coração.

BN: Na última Bienal do Livro de São Paulo foi anunciado o crossover dos personagens da Liga da Justiça com a turminha do Bairro do Limoeiro. O que passou pela sua cabeça quando ficou sabendo dessa novidade?

FT: É realmente difícil de segurar a emoção quando te falam: “Você vai escrever uma história com os personagens da DC e Turma da Mônica”. Desta vez, não será o Superhomão e Batimão (como brincamos de chamá-los nas nossas HQs) e, sim, o Bruce Wayne e o Clark Kent de verdade. Batman, Superman, Mulher Maravilha…A Trindade da DC Comics com o quadrado mágico da Mônica, Cebolinha, Cascão e Magali. É a realização de um sonho duplo, porque sou muito fã da DC e apaixonado por Turma da Mônica. É como pedir um bolo de chocolate com camada dupla e vir dois bolos de camada tripla. Sei lá, é uma coisa difícil de imaginar e dimensionar. Eu fiquei exultante, feliz demais e quase não consegui dormir de ansiedade. Aquela vontade de contar pra todo mundo e não poder. Em suma, eu pirei!

Foram dias de crise nas infinitas terras dos quadrinhos da minha infância.

Batimão ficou no passado! Agora, a turminha conhece o próprio Bruce Wayne! (Foto: Panini)

BN: O processo de criação para as histórias com a Liga da Justiça é muito diferente do processo que você está acostumado a usar na MSP?

FT: Não. Na verdade, tivemos bastante liberdade de uso de personagens da DC e com o tema da história. Foi bem tranquilo. O processo de roteiro na MSP é um pouco diferente de outros estúdios, porque o Mauricio nos ensinou a melhor maneira de contar uma história sem perder tempo e de forma bem direta.

Nós criamos um rafe, um rascunho da história. Ou seja, o roteirista faz não somente o texto, mas o desenho dos personagens, ângulos da ação da narrativa. É como um story board, uma prévia de como a história ficará. Isso facilitará na hora em que o Mauricio e Marina (sua filha, que também aprova os roteiros e conceitos criativos da empresa) vão analisar o roteiro, porque desenhado ele não dá tanta margem de interpretação que um texto corrido daria. É mais rápido e direto, ainda mais com um volume de mais de mil e quinhentas páginas que precisam ser revisadas por mês.

BN: As histórias precisam ser aprovadas por alguém da DC Entertainment?

FT: Sim, elas eram aprovadas primeiramente pela MSP e depois encaminhadas à DC para aprovação. Se tivesse algo que precisasse ser ajustado, voltava ao roteirista.

A Turma da Mônica Jovem também terá seu encontro com a Liga da Justiça. (Foto: Panini)

BN: Como você descreveria a sensação de trabalhar com personagens clássicos da DC?

FT: Você volta no tempo e lembra dos desenhos que via quando criança. Primeiro dos Superamigos, depois da Liga da Justiça, de Paul Dini e Bruce Timm. Lembra também do Batman, de Adam West (que eu levava a sério quando pequeno) e de tantas revistas da DC que me marcaram na adolescência, como O Cavaleiro das Trevas, A Piada Mortal, Crise nas Infinitas Terras. Passa por seriados, como o Flash dos anos 90 e o atual, Mulher-Maravilha, da Linda Carter e Gal Gadot, lembra até do obscuro seriado do Shazam, dos anos 70, que eu assistia na casa de uma tia que tinha TV em cores naquela época. Tudo isso vai fazendo um grosso caldo cultural de referências que vão te injetando mais força de querer fazer uma boa história com os dois universos que estimo tanto.

É realmente a realização de um sonho poder ter uma história com os personagens da Turma da Mônica e DC Comics juntos e ver meu nome ali do lado. Não tem preço.

BN: Quantas revistas serão no total?

FT: Serão 6 de linha (Mônica, Cebolinha, Cascão, Magali, Chico Bento e Turma da Mônica) e 2 da Turma da Mônica Jovem.

BN: Para finalizar, sem dar spoilers (rs), o que o público pode esperar dessas histórias?

FT: Claro! Spoilers, quem não gosta de spoilers?

Fiz duas histórias: uma para a Turma da Mônica clássica e outra para a Turma da Mônica Jovem. É o máximo de spoilers que posso dar sem que leve uma coelhada ou que um certo morcego de Gotham me coloque de cabeça pra baixo no topo de um edifício.

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Daniel Generalli

Jornalista formado pela Universidade Metodista de São Paulo, nerd de nascimento e ganhador do troféu HQMix pelo TCC "Vozes e Traços - O Novo Cenário Brasileiro de HQs".

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